Raízes Pagãs Celtibéricas e Autóctones de Pindorama

A Bela e a Fera -- Úlfgangr, 2017
A Bela e a Fera — Úlfgangr, 2017

“E vós, formosas mouras encantadas,
Na noite de S.João ao pé da fonte,
Áureas tranças com pentes de ouro fino
Descuidadas penteando
enquanto o orvalho
Nas esparsas madeixas arrocia
E os lindos anéis de perlas touca.”
— D. Branca, Almeida Garrett

As lendas sobre bruxas montadas em animais têm sua origem nos ritos extaticos do passado paleolítico, como já dissemos. O voô rápido é uma técnica real utilizada ainda hodiernamente nos pactos da Arte Sem Nome. Os arcanos para esses ritos se escondem em poemas, feitiços, poções, músicas e pinturas. Remetem à Caçada Selvagem e ao Casamento Divino já tratados aqui. Por diversas civilizações vemos rastros e pegadas de nossos daimones e dos sabbats.
No norte de Portugal temos o Dia do Diabo. Segundo a lenda, todos os anos, no dia 24 de Agosto, o diabo – simbolizado num cão atrelado à imagem de S. Bartolomeu – anda à solta, só voltando ao mar quando anoitece. Esta data se assemelha à Lupercália, pois é um rito em que mais de 300 pessoas se reúnem usando máscaras de diabos e carregando estátuas de um casal demoníaco, num lembrança a um antigo culto da fertilidade.
É importante lembrar dessa festa agora, cujo nome supõe-se derivar de lupus (lobo). Dizia-se ter sido instituída por Evandro o árcade, mas é possível que existisse desde o período pré-romano. Realizavam-na na na gruta de Lupercal, no monte Palatino (uma das sete colinas de Roma). Teria sido onde, segundo a tradição, Pã — também chamado Fauno Luperco (o que protege do lobo), em cuja honra se fazia a festa — tomou a forma duma loba e amamentou os gémeos Rómulo e Remo.
A festa da Lupercália simbolizava a purificação que devia acontecer em Roma ao fim do ano (que começava em Março). Anualmente, um corpo especial de sacerdotes, os luperci sodales (lupercos sodais) eram eleitos entre os patrícios mais ilustres da cidade.
Na data prevista, então, os lupercos daquele ano encontravam-se na gruta Lupercal para sacrificarem dois bodes e um cão e serem ungidos na testa com o sangue, limpado da lâmina do sacrifício com um lã embebida em leite. Vestiam-se então do couro dos animais, simbolizando Fauno Luperco, do qual arrancavam tiras, chamadas februa, com as quais saíam ao redor da colina a chicotear o povo, em especial as mulheres inférteis, que se reuniam para assistir o festival.
A Lupercália era uma festa de fim de ano. Acreditava-se que essa cerimónia servia para espantar os maus espíritos e para purificar a cidade, assim como para liberar a saúde e a fertilidade às pessoas açoitadas pelos lupercos.
A associação com a fertilidade viria de as chicotadas deixarem a carne em cor púrpura. Essa cor representava as prostitutas sacerdotais da Ara Máxima, também chamadas lobas.
Tratava-se também dum rito de passagem, simbolizando a morte e a ressurreição, celebrando assim a vida e, tinham características adotadas mais tarde nas festas de Carnaval, cuja data foi mascarada pelo Dia de São Valentim.

1024px-carnaval_de_podence_2008_17Isso nos remete ainda os caretos, personagens mascarados do carnaval de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Portugal. O careto é um homem que usa uma máscara com um nariz saliente feita de couro, latão ou madeira pintada com cores vivas de amarelo, vermelho ou preto. Numa outra versão, a máscara, feita de madeira de amieiro decorada com chifres e outros apetrechos, é usada em Lazarim. Neste verdadeiro carnaval, a festa é caracterizada pelo cortejo etnográfico, e testamentos quase satíricos, numa apologia à fertilidade animal em seus traços zoomórficos, vinda de tempos em que tudo era vivido em clandestinidade, confrontando a autoridade institucional e religiosa vigente.
Pensa-se que a tradição dos Caretos tenha raízes célticas, de um período pré-romano. Provavelmente, está relacionada com a existência dos povos Galaicos (Gallaeci) e Brácaros (Bracari) na Galiza e no norte de Portugal. O careto usa fatos às riscas, com capuz, de cores garridas, feitos de colchas com franjas compridas de lã vermelha, verde e amarela. Carrega bandoleiras com campainhas e enfiadas de chocalhos à cintura. Da sua indumentária faz também parte um pau ou cacete.
Citando o sítio oficial dos Caretos de Podence:

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“Os Caretos usam máscaras rudimentares, onde sobressai o nariz pontiagudo, feitas de couro, madeira ou de vulgar latão, pintadas de vermelho, preto, amarelo, ou verde. A cor é também um dos atributos mais visíveis das suas vestes: fatos de colchas franjados de lã vermelha, verde e amarela, com enfiadas de chocalhos à cintura e bandoleiras com campainhas. Da sua indumentária, faz também parte um pau que os apoia nas correrias e saltos. A rusticidade do ambiente é indissociável desta figura misteriosa.”

A festa dos caretos faz parte de uma tradição milenar que é celebrada em Portugal no Entrudo. Em Trás-os-Montes é celebrado em várias aldeias dos concelhos de Vinhais, Bragança, Macedo de Cavaleiros (especialmente Podence) e Vimioso, e no Alto Douro em Lazarim no concelho de Lamego.


Moiras

As bruxas também têm vez nas terras ibéricas, sob o nome de mouras ou moiras encantadas.
As lendas descrevem as mouras encantadas como jovens donzelas de grande beleza ou encantadoras princesas e “perigosamente sedutoras”. Aparecem frequentemente cantando e penteando os seus longos cabelos, louros como o ouro ou negros como a noite, com um pente de ouro, e prometem tesouros a quem as libertar do encanto.
Podem assumir diversas formas e existe um grande número de lendas, e versões da mesma lenda, como resultado de séculos de tradição oral. Surgem como guardiãs dos locais de passagem para o interior da terra, os locais “limite”, onde se acreditava que o sobrenatural podia manifestar-se. Aparecem junto de nascentes, fontes, pontes, rios, poços, cavernas, antigas construções, velhos castelos ou locais onde estão tesouros escondidos.
Julga-se que a lenda das mouras terá a sua origem em tempos pré-romanos. As mouras encantadas apresentam várias características presentes na Banshee das lendas Irlandesas. Também na mitologia Basca, os Mairu (mouros) são os gigantes que construíram dólmens e os cromeleques. Na Sardenha podemos encontrar os domus das Janas (casa das fadas).
Há a hipótese de as mouras encantadas poderem ter assimilado as características de divindades locais, como ninfas e espíritos da natureza.
Na Península Ibérica, as lendas de mouras encantadas encontram-se também na mitologia Galega e Asturiana. Na tradição oral portuguesa, as Janas são uma outra variante de donzelas encantadas. Na mitologia polaca, a Mora é o espírito que deixa o corpo dos humanos à noite durante o sono. Na mitologia da Letónia, Māra é a deusa suprema. Na mitologia escandinava, Mara ou Mare é o espírito errante que deixa o corpo das mulheres durante a noite e causa pesadelos.

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“Poisámoira” ou mariposa.

Numa perspectiva pessoal, lembro-me de ter visto minha mãe dizer, assertivamente, que mariposas eram bruxas. Numa certa ocasião recorreu à autoridade de minha bisavó, que alegou também ser bruxa. Por meio desta, vinda da Suíça e casada com um português, é evidente que a influência celtibérica na família não seria pouca.
Especula-se que o termo “mouro”, nesta acepção, não derivaria do latim maurus (“habitante da Mauretânia”) mas do proto-celta mrwo ou marwo que significa morto. Outra teoria é que o termo possa derivar da palavra grega “moira” (μοίρα), que literalmente significa “destino”, e das Moiras, divindades originárias da mitologia grega.
Outra corrente indica que a origem poderá vir das palavras celtas “mori”, que significa mar, ou “mori-morwen”, que designa sereia, provavelmente relacionando as mouras com as ondinas ou as ninfas, os espíritos sub-humanos que habitavam nos rios e nos cursos de água. Uma outra possível origem de moura (moira), também de origem celta, é “mahra” e “mahr”, que significa espírito.
Temos ainda termos análogos, como a Mare (do antigo inglês: mære; no velho holandês: mare; e mara no alemão antigo), que é um espírito mau ou um diabrete no folclore alemão e eslavo que monta no peito das pessoas quando dormem, trazendo sonhos maus ou mesmo pesadelos terríveis. A Mare é muitas vezes semelhante às criaturas míticas succubus e inccubus. A etimologia nesse caso remete a substantivos femininos que, por sua vez, vêm do Germânico Comum marōn.
Marōn é a raiz do norueguês antigo: mara, de que são derivados o sueco mara; Islandês: mara; Feroês: marra; Dinamarquês: mare; Norueguês: mare / mara, holandês: (nacht) merrie, e alemão: (Nacht) mahr. O sufixo -mar na palavra francesa cauchemar (“pesadelo”) é emprestado do germânico através da francês antigo mare, e também designa entidades que atacam humanos dormentes.

A palavra pode, em última instância, ser rastreada até a reconstruída raíz indo-europeia mer-, “apagar (alguém) / agressão” ou “prejudicar / causar mácula”. O folclorista húngaro Éva Pócs endossa uma etimologia alternativa, traçando o termo central de volta ao grego μόρος (indo-europeu moros), que significa “morte”.

Em norueguês e dinamarquês, as palavras para o “pesadelo” são mareritt e mareridt respectivamente, que podem diretamente ser traduzidas como a “mare-que-cavalga”. A palavra islandesa martröð tem o mesmo significado (-tröð do verbo troða, “pisar”, “selo sobre”, relacionado com “pisar”), enquanto o sueco mardröm traduz como “mare-do-sonho”.
Era crença comum que a mare era um tipo de valquíria a “cavalgar” os cavalos dos cercados humanos, o que os deixava esgotados e cobertos de suor pela manhã. Ela também poderia emaranhar o cabelo do homem ou besta dormindo, resultando em “marelocks” (travas de bruxa), chamados marflätor (tranças-da-morte) ou martovor (emaranhados-mórbidos) em sueco ou marefletter e marefloker em norueguês.
Até mesmo árvores entraram no “imaginário” da cavalgada das mare, resultando em ramos sendo enredados. Os pinheiros pequenos e retorcidos que crescem em rochas costeiras e em terrenos húmidos são conhecidos na Suécia como martallar ou em alemão como Alptraum-Kiefer (“pinho do pesadelo”).

De acordo com Paul Devereux, as mare incluíam bruxas que assumiam a forma de animais quando seus espíritos saíam, enquanto eles estavam num quase-transe. Dentre estes animais, incluíam rãs, gatos, cavalos, lebres, cães, bois, aves e muitas vezes abelhas e vespas.

No folclore brasileiro temos animais considerados sinais de bruxas ou entidades sombrias, talvez por causa dessa descendência latina e celtibérica, assim como por parte dos autóctones ameríndios. Temos o urutau, que por seu canto melancólico semelhante ao choro de um humano e fácil camuflagem em troncos de árvores mortas, é considerado pelos indígenas mesmo como sinal sombrio, assinalado em seu nome que significa algo como “ave-fantasma”.

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The Night Before the Dawn of the Tribulation ~ Richard Moult

Temos também as corujas conhecidas como suindaras ou rasga-mortalhas, aves pequenas e brancas, de vôo baixo. O som que elas produzem se assemelham ao de um pano se rasgando, o que é considerado um aviso de morte aos convalescentes.
Esta crença surgiu numa lenda em que uma jovem carpindeira — mulher que é paga para chorar em velórios e enterros — chamada Suindara, pálida e de ancas avantajadas, se apaixonou por um filho de uma condessa. A suposta nobre não gostava do envolvimento do filho com tal moça, e armou uma cilada para esta: fingiu querer contratar os serviços da jovem Suindara para um velório, marcando um encontro num cemitério, numa cripta azul situada no ponto mais distante daquele local.
Um dos empregados da condessa foi encarregado de dar cabo da vida da carpindeira, cuja morte foi lamentada e em cuja homenagem foi esculpida uma enorme coruja branca sobre sua cripta. O pai da moça, para a infelicidade da condessa, era um feiticeiro que recorreu à um oráculo e descobriu quem havia causado dor à sua família. Abriu então uma conexão entre a estátua da coruja e a filha morta. Suindara voou de seu corpo de pedra e, sob os sons de suas asas, a morte da condessa logo chegou. Quando encontraram o corpo da suposta nobre, depararam-se com marcas de garras rapineiras e roupas rasgadas feito mortalhas.

As corujas também são símbolos de pontos extremos das divindades mulíebres, representando por exemplo a atividade agourenta, nocturnal, e rapineira da Mãe de Sangue, assim como a Sabedoria em sua forma mais numinosa, vide Lilith e Athena al-Allat, respectivamente. A esta última, deusa venerada pelos Nabateus — iniciados do helenismo no médio oriente — podemos aferir a coruja como símbolo por uma prece, de autoria de um devoto lusófono contemporâneo:

Ouve-me! Ó Divina dama de Raqmu
A toda-poderosa Athena-Allat!
Filha do Trovão, Senhora da Coruja e do Leão
Luz da Justiça e Rainha do Destino
Que teu escudo me guarde da impiedade
E que sua lança elimine de mim todo temor
Guia-me, ó sapientíssima Deusa
Conceda a mim a pura luz de teus mitos
Infatigável e belígera inimiga da injustiça
Ar-Rahim! Divina Glaucópida de áureo elmo
Proteja teus devotos, e os oculte dos olhos ímpios
.

Ainda sobre as moiras, no folclore polonês, zmora ou mara são as almas de pessoas vivas que deixam o corpo durante a noite, e são vistas como mechas de palha ou cabelo, ou como traças / mariposas. Por conseguinte, a mara polaca e a můra tcheca denotam tanto uma espécie de elfo ou espírito, bem como uma “mariposa-esfinge” ou “borboleta da noite”.
Em croata, mora refere-se a um “pesadelo”. Mora ou Mara é um dos espíritos da antiga mitologia eslava. Mara era um espírito escuro que toma uma forma de uma mulher bonita e, em seguida, visita os homens em seus sonhos, torturando-os com desejo, e arrastando a vida para fora deles. Na Sérvia, uma mare é chamada mora, ou noćnik / noćnica (“criatura noturna”, masculina e feminina, respectivamente). Na Romênia elas eram conhecidas como Moroi.

moura_encantada_by_noxsatvrniiÉ no dia de São João que se acredita que as mouras aparecem com os seus tesouros, quando se pode quebrar o seu encantamento. Em algumas lendas é neste dia que a moura encantada espalha os figos num penedo, ao luar. Noutras variantes, a moura espalha os figos ou a meada de ouro ao sol em cima do penedo. Estas lendas estão possivelmente relacionadas com a tradição popular de, nalgumas regiões, apanhar-se o figo lampo no dia de São João, um figo branco que se levava de presente. Este dia marca a data do solstício de Verão, sendo a sua referência talvez a reminiscência de algum culto solar pagão.

A fonte é um dos locais que as mouras aparecem frequentemente, muitas vezes como serpentes. Muitas vezes eram atribuídas virtudes mágicas às suas águas, como na Fonte da Moura Encantada. Também é do costume popular dizer de quem casou em terra alheia, “bebeu da fonte” e ficou enamorado, numa alusão às lendas em que os jovens se apaixonam e ficam encantados pelas mouras. Essa água lembra-nos a Água Viva de nome Azoth da alquimia. Está água também era representada tanto pela imagem de um lobo cinzento, quanto pela de uma donzela.

O encantamento da moura pode ser causado pelo pai ou algum outro mouro (génio da natureza) que a deixou a guardar os tesouros, geralmente uma figura masculina. São geralmente os mouros que têm o poder de encantar as mouras. Nas lendas, a moura pode aparecer sozinha, acompanhada de outras mouras encantadas, ou de um mouro, podendo este ser um pai, a pessoa amada, ou um irmão. Esse companheiro encantador faz provável referência ao caçador valoroso ou diabo astuto, o homem obscuro que leva as donzelas ao encontro da “morte”.

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Castro do Néixon, em Galiza.

Para se realizar o desencantamento da moura, pode ser solicitado um segredo, um beijo, um bolo ou pão sem sal, leite, o pronunciamento de algumas palavras, ou a realização de alguma tarefa, como não olhar para algo velado e aguentar a curiosidade. Falhar é não desencantar a Moura e “dobrar o encanto”, não obter o tesouro desejado ou perder a moura amada. Numa linguagem oculta, isso poderia significar alcançar a sabedoria por meio do ordálio, da prova (pathei-mathos), e um teste de valor, com o risco da perda do contacto com o numinoso (divino) por conta do desequilíbrio (húbris) ou falta de disciplina e honra.

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Casa de Moira ou Casa de Fada.

Nas lendas em que é solicitado o pão, levanta-se a hipótese de estarem relacionadas com a antiga tradição de se oferecer alimento aos defuntos. Do mesmo modo, o leite pode estar relacionado com as oferendas que se faziam às águas das fontes e às cobras. A população mais antiga contava também que as cobras gostavam muito de leite. Uma das lendas das mouras de Formigais faz referência à preferência das mouras por leite.
Essa analogia com as serpentes faz sentido quando lembramos das lendas do culto ofi.
Ofiússa ou Ophiussa é o nome dado pelos antigos gregos ao território português e significa Terra das Serpentes. Os ofis viveriam, principalmente, nas montanhas do norte de Portugal, incluindo a Galiza. Outros dizem que estes viviam na foz dos rios Douro e do Cávado com sua foz em Ofir. Este povo venerava as serpentes, daí Terra das Serpentes ou Serpes.

Existem alguns estudos arqueológicos que mencionam este povo e cultura. Alguns creem que o dragão, muitas vezes representado como um grifo e originário de uma primitiva serpente alada – a “Serpe Real”, timbre dos Reis de Portugal e depois também dos Imperadores do Brasil, está relacionado com este povo, ou com os celtas que mais tarde colonizaram a zona, que por sua vez poderiam ter sido influenciados pelo culto ofi.

drag25c325a3oNo século IV, o poeta romano Avieno, na Ora Maritima, um documento inspirado por uma viagem marítima, anotou que os “Oestriminis” (Estrímnios), um povo que vivia naquela área desde há muito tempo, tiveram que fugir das suas terras depois de uma “invasão de serpentes”.

“Ophiussam ad usque. rursum ab huius litore
internum ad aequor, qua mare insinuare se
dixi ante terris, quodque Sardum nuncupant,
septem dierum tenditur pediti via.
Ophiussa porro tanta panditur latus
quantam iacere Pelopis audis insulam
Graiorum in agro. haec dicta primo Oestrymnis est
locos et arva Oestrymnicis habitantibus,
post multa serpens effugavit incolas
vacuamque glaebam nominis fecit sui.”

Isto pode ser uma relação aos Sefes ou ofis (“o povo das serpentes”) oriundos da região germano-checa da cultura de Hallstatt, e aos Draganos (“o povo dos dragões”), que vieram colonizar aquelas terras e formaram um território conhecido pelos gregos como Ofiússa. Alguns autores relacionam o povo Ofi com os druidas ou proto-celtas ou, até mesmo, antigos egípcios. Numa tradição egípcia, refere-se que as “serpentes” egípcias de Karnak ou Luxor teriam emigrado para a Europa.

Ainda sobre os Draganos, sua tribo está associada à Cultura dos Berrões, tendo esse nome pela existência em sua região de estátuas proto-históricas de pedra (mármore, granito ou talco), esculpidas em pleno relevo com figuras zoomórficas. A temática que estas esculturas apresentam é sempre de animais terrestres, como porcos domésticos, javalis, touros, bodes, cães e raramente ursos, em tamanho natural. Acredita-se que as estátuas dos berrões eram utilizados para fins de carácter religioso. As esculturas representariam animais sagrados, ou mesmo divindades protectoras do gado, a quem se prestava culto; um outro possível uso seria o de monumento funerário, como se leva a crer pelas inscrições que algumas destas esculturas exibem.

Além do mais, há tradições interessantes sobre os lobos na cultura céltica. A exemplo da tradição romana, é dito que o rei arquetípico irlandês, Cormac mac Aoirt, fora criado por uma loba junto de seus filhotes, e que lobos nunca o ameaçavam, podendo implicar em uma ligação totemica entre o rei guerreiro e os lobos.

Isto nos remete a Abidis, uma divindade da mitologia dos celtiberos e o nome de um rei mitológico relacionado com a cidade portuguesa de Santarém.
Durante a sua Odisseia, Ulisses de Ítaca teria passado por terras lusitanas, onde se apaixonou por Calipso, filha do celtibero Gorgoris, rei dos Cunetas. Dessa relação teria nascido Abidis, que o avô teria mandado abandonar, colocando numa cesta foi atirando ao rio Tejo.
A cesta subiu o rio contra a corrente e foi recolhida por uma loba ou uma cerva na praia de Santarém, que alimentou e protegeu o príncipe Abidis. Após alguns ocorridos, este acabou por ser reconhecido por Calipso, que o tornou o legítimo herdeiro do trono, e escolhendo o sítio de Santarém para capital do reino, ao qual deu o nome de Esca Abidis (o manjar de Abidis), que teria derivado em linguagem corrente para Scalabis.
No tempo do domínio romano, Santarém teve o nome de Scalabicastrum, e essa origem permanece na designação dos habitantes, conhecidos por escalabitanos.

Nossos celtas tinham o hábito de cruzar cães e lobos para criar seus grandes mastins de guerra. E uma das formas usadas pela deusa Morrighan para lutar contra Cuchúlainn foi a de uma loba, mostrando que os celtas reconheciam o valor guerreiro do Lobo. Mas o lobo é muito mais do que isso, pois é um animal de fortes laços sociais e de lealdade a própria matilha. Um dos dons que a deusa Henwen (para alguns, outra forma de Ceriddwen) dá ao País de Gales é um filhote de lobo, que representa a união do povo. O lobo também é associado aos frios e proibitivos tempos do inverno nas terras célticas, e no calendário tradicional escocês, o mês mais frio é o chamado Faoilleach (“o Tempo do Lobo”). No inverno também, Merlin, em sua loucura, encontrou um velho lobo na floresta, e desfrutou um pouco de sua companhia. Lobos se tornaram totens familiares comuns na Escócia, e famílias como os MacTyres, MacLennans e MacMillans trazem a distinção de descender de lobos em seus nomes. No País de Gales, nomes e sobrenomes comuns também trazem ligações com os lobos, como Bledyn e Bleddri. Pelo menos uma tribo irlandesa dizia ter sua origem nos lobos também, mostrando que lobos eram ancestrais valorizados. Tão valorizados que ele é um dos animais retratados no Caldeirão de Gundestrup, estando ao lado da divindade de chifres. O Cernunnos é o Senhor dos Animais e das Feras, e um de seus grandes representantes no mundo é certamente o leal e selvagem Lobo.

Nas distantes terras de Pindorama temos um outro representante do deus selvagem, o ser de nome Anhangá.
“Anhangá” vem do termo tupi añánga, que significa “espírito”. Segundo alguns mitos, era o protetor da caça nas florestas, protegendo dos caçadores os animais jovens demais ou que estão amamentando. Quando a caça conseguia fugir, os índios diziam que Anhangá as havia protegido e ajudado a escapar. Sua presença era precedida por assobios e o sumiço repentino dos animais. Um pacto pode ser firmado com ele por meio da oferenda de tabaco. É interessante o fato de que ele seja representado comumente por um cervo e ter sido associado ao diabo pelos jesuítas, como um tipo de representante ameríndio do Senhor da Terra de Boötes, do qual falaremos mais numa próxima publicação.
Não obstante, mais importante do que qualquer divisão ou particularidade tribal e étnica, é o reconhecimento de cada uma das riquezas míticas de cada antepassado, e manter a linhagem sagrada de nossa Natureza-Sempre-Mutável-de-Ser (Physis).

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Airson Gleidhadh An Diomhaireachd (O Mistério de Gleidhadh), 2012 ~ Richard Moult

Que os antepassados se manifestem em sua mais sublime e selvagem natureza.
~ Petros Sirius

~ Comunidade Avernal da Canídea, Pacto da Alcateia.


NOTAS E REFERÊNCIAS:

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