Drakeîn

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Miranda — Richard Moult, 2005.

“Abertura e simplicidade,
afetos às claras.
Nada por ocultar
aos olhos da consciência.”
~ Abelard Gregorian, Transparência.

Uma das formas pela qual a realidade divina se expressa é pela arte. A arte do belo e do natural expressam as forças divinas de forma sem igual, em sua sonoridade ou paisagem misteriosa, aberta àqueles que andam o Caminho dos Mistérios Sussurrados (Rūnō Wɪð).
Aqui serão publicadas algumas obras que sussurram para nós alguns destes mistérios. Saiba Ver e Ouvir…

A arte que inicia este texto é de um balobiano (artista) já conhecido no Caminho Septenário e entre amantes de obras minimalistas. O nome desta obra e sua paisagem é peculiar e interessante para nós.
O nome Miranda foi inventado por William Shakespeare para uma personagem em sua peça “A Tempestade”, que foi realizada pela primeira vez em 1611. Tem origem no latim mirandus, que quer dizer “adorável, admirável, maravilhosa”, através da raiz mirari, que significa “admirar, maravilhar-se”.
Não encontramos nenhuma evidência de que Miranda tenha sido usado como um nome dado antes dessa data. O primeiro exemplo que encontramos foi na Inglaterra em 1687; Ele aparece novamente na Nova Inglaterra no século 19 e tornou-se um pouco popular na Grã-Bretanha e os Estados Unidos no século 20.

Encontramos um único exemplo do nome Admiranda em 1231-32, derivado do latim para “admirado”. Houve um período breve, aproximadamente de 1200 a 1250, quando havia uma moda inglesa para cunhar nomes de mulheres fantasiosas. Em geral, essas invenções não sobreviveram, e Admiranda foi um dos mal sucedidos.

Serpiente_alquimica2 (2)Miranda é usado como um sobrenome na Península Ibérica, derivado de um de pelo menos dois nomes de lugar: Há uma cidade antiga “Miranda de Ebro” no rio Ebro na Espanha ao norte e outro “Miranda do Douro” no rio Douro em Portugal. Miranda é uma forma do verbo mirar — “olhar (para)” — e provavelmente significava algo como “ponto de vigia” ou “torre de vigia”. Encontramos o sobrenome António de Miranda em 1531 e Bastião de Miranda em 1533, ambos em Portugal. No entanto, não encontramos nenhuma evidência de que este sobrenome foi usado como base para um nome dado: A reutilização de sobrenomes como nomes é extraordinariamente rara em espanhol e português.

Mirande é uma cidade no sul da França, derivado da antiga palavra occitana “mirand”, que significa “torre de vigia”. O nome do lugar naturalmente produziu sobrenomes; Mas novamente não encontramos nenhuma evidência de que qualquer desses sobrenomes foi usado como um nome dado.

Resumindo: Miranda não parece ter sido usado como um nome dado antes de 1687 e não entrou em uso regular até o século XX.
Porém, é cognato do substantivo δράκων (drákon, dragão) do grego antigo. A etimologia dessa palavra é tradicionalmente relacionada ao verbo δρακεῖν (drakeîn, “ver”). Com a tradução literal de “Aquele que Olha fixamente”. Interessante esse significado de drakon e o uso atual das hordas de magia usarem a Visão do Dragão como nome para a experiência de Olhar com o Ser Mais Profundo. Há a presença de mitos sobre dragões em diversas culturas ao redor do planeta, dos dragões com formas de serpentes e crocodilos da Índia até as serpentes emplumadas adoradas como deuses pelos autóctones das Américas (Quetzalcoatl, a serpente alada do golfo do México e, Mama Pacha da tribo Chincha do Peru) ou o representante autóctone mais sinistro, o Boitatá, uma espécie de cobra de fogo, um verdadeiro dragão, associada à um fogo-fátuo das terras brasileiras, do qual é dito que quem encontra esse ser fantástico nas campinas pode ficar cego, morrer e até enlouquecer passando pelos grandes lagartos da Polinésia, pela Jormungand nórdica, e por diversos outros, variando enormemente em formas, tamanhos e significados. Mas o mais interessante, por ser tratar do símbolo universal dos dragões, do eterno retorno do ciclo da vida e, das profundezas da alma, é o Ouroboros. Este é o símbolo da Individuação, a Visão da Totalidade, o Sol que brilha no interior de cada homem, nutrindo com calor e vida, e com todo o potencial destrutivo do espírito que triunfa sobre a matéria.
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E ali, naquela paisagem arborizada da pintura de Richard Moult, nos observam as raposas, torres de vigias matreiras. O céu constelado nos lembra um certo conjunto de estrelas chamado Vulpecula.
A Raposa (ou Raposinho) é uma das constelações introduzidas pelo astrónomo polaco Hevelius na sua obra “Firmamentum Sobiescianum”, publicada em 1690, após a sua morte. Dotado de uma acuidade visual extraordinária, a que o próprio se referia algumas vezes para gracejar com os seus contemporâneos — a constelação do Lince, por exemplo, foi imaginada por este astrónomo, que sublinhava ser necessária uma “visão de Lince” para localizá-la — Hevelius chamou a esta constelação Vulpecula cum Anser (“A  Raposa e o Ganso” ), por nela conseguir visualizar uma raposa com um ganso na boca. Sendo, desde logo, uma constelação difícil de se observar por ser constituída por estrelas de fraco brilho, a maior parte das que formam a figura do ganso imaginado por Hevelius contam-se entre as menos brilhantes, pelo que não são fáceis de detectar a olho nu para a larga maioria dos observadores. Também por esta razão, se abreviou o nome da constelação para “Vulpecula”, apenas. Embora seja bastante difícil de se localizar no céu, pode ser usada como referência a proximidade de estrelas bastante óbvias nas constelações vizinhas Cisne ou Cygnus ( nomeadamente, “Albireu”) e Lira: Vulpecula encontra-se relativamente próxima de uma estrela muito brilhante, a Alfa da Lira – de nome próprio “Vega”.
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A raposa costuma ser vista pela população rural européia como uma demonstração de selvageria, de um animal indomesticado que ainda representa riscos ao rebanho (principalmente ovino), mas que, nessa selvageria, possui uma beleza e nobreza dignas de nota. Quando o homem de Lindow Moss foi descoberto, ele usava um bracelete de pele de raposa, o que fez com que os arqueólogos logo entendessem que se tratava de um nobre. O fato de ele parecer ter sido sacrificado ritualmente pode sugerir uma importância espiritual para a pele da raposa. É comum dentro das culturas nativas usar a pele de um animal totemico como proteção em uma jornada ao mundo dos mortos. No santuário funerário de Aulnay-aux-Planches, foram encontrados os restos de um urso, um cão e uma raposa sacrificados, mostrando a sua importância ritual. Infelizmente, o significado nos foi perdido, mas há uma sugestão que o cão seria para guardar a viagem ao Outro Mundo, a raposa para guiar com astúcia e o urso para prover um caminho de volta. Raposas sacrificadas também aparecem nas escavações de Winklebury, Mirebeau, e Ribemont. O nome da Raposa pertenceu a vários chefes celtas, e Louernius (“raposa”) foi o nome de um grande chefe gaulês reconhecido por sua generosidade. Outros dois chefes britanicos também carregaram esse nome. Mas o significado da Raposa está sempre ligado à astúcia (e por isso, ela pode ter sido escolhida para o Lindow Man) na grande maioria das culturas, e alguns chefes gaélicos eram chamados de “raposas” por sua capacidade diplomática. A raposa surge também como animal totemico de um clã irlandês, os Uí Caharney, que eram chamados de “raposas” pelas outras famílias gaélicas. O folclore da Bretanha Armórica nos reserva algo interessante sobre a raposa: ele nos diz que as raposas guardam uma pedra preciosa que traz boa sorte. Hoje em dia, a boa sorte está na oportunidade de encontrar um desses belos animais, guardiões da astúcia.

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Arte de Lucien Crepon (1828-1887), de nome ‘Sabbath of the fox Devils’, contida no livro “Cyclopedia Universal History, Vol. VII” por John Clark Ridpath, 1895.

Esta imagem mostra a velha árvore onde as raposas se encontram uma vez por ano à noite. Esta é uma lenda no Japão, onde luzes dos pântanos são referidas como ‘Kitsune bi’, que significa [fogo] raposino. As raposas vêm em uma procissão para receber suas ordens para o próximo ano e encontrar companheiros. Esta procissão se reflete nos costumes das procissões em casamentos japoneses. Estas luzes dos pântanos são conhecidas como “ignes fatuus”, que é uma combustão espontânea dos gases em um fungo fosforescente. A procissão de luzes pirilampas e tochas não ocorre apenas no Japão, mas em todo o mundo.
No Japão o fogo de raposa, ‘Kitsune no Yomeiri’, é raramente visto hoje devido ao desmatamento.

151a3a71436e1ad3cf2d0025c6d8aed6Para nós do Brasil há essa ligação celtibérica, mesmo que distante, com as raposas. Talvez haja algo próximo para nós, que são as raposas-do-campo, os graxaim e os lobos-guará, espécie de falsa raposa, mas considerado parente da raposa-das-falkland. Esta espécie sofreu ameaça de extinção em 1860, quando colonos escoceses introduziram a criação de ovelhas nas Malvinas. Para eliminar o que consideravam uma ameaça aos seus animais, os colonos organizaram uma campanha de envenenamento que tornou a espécie rara. O processo de extermínio continuou e a última raposa-das-falkland morreu em 1876, mas ainda nos resta este belo representante, nas terras de Pindorama.

Esperamos que o arquétipo astuto de Vulpecula guie aqueles que querem um olhar a mais sobre o que os olhos das raposas miranda querem nos dizer…

“Quando a fresta se abrir
eu sairei correndo como um vento forte
e não serei mais encontrado.

Serei poeira na estrada.

Não mais o que faço
e o que pretendo fazer. Esta angústia
de algo a terminar
sem se decidir.

Irei de mãos dadas com o destino
e a cor da Lua Branca vai iluminar os meus passos.

Vou procurar
a alegria
que perdi.”
Alberoni

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~ Drakeîn
~ Comunidade Avernal da Canídea, Pacto da Alcateia


Referências:
·Withycombe, E.G., The Oxford Dictionary of English Christian Names, 3rd ed. (Oxford: Oxford University Press, 1988);
·Liddell & Scott (1940) A Greek–English Lexicon, Oxford: Clarendon Press.

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