Raízes Pagãs Celtibéricas e Autóctones de Pindorama — O Panteão Ibérico

Serpiente_alquimica2 (2)Dando prosseguimento a nossa publicação anterior sobre o paganismo que fala ao sangue dos que moram hoje no Brasil, seguimos com alguns deuses da península ibérica que são peculiarmente similares às formas divinas de nossa tradição de deuses inomináveis. Os deuses românicos são conhecidos, e ainda serão muito discutidos neste espaço, pois seus mitos nos favorecem com bençãos e maldições. Quem ler outros textos perceberá que falo àqueles que possuem o sangue de errantes que chegaram aqui em busca de uma nova vida, deixando suas terras mas trazendo seus deuses no modus vivendi e no Sangue. Aqui, os deuses do outro lado do Oceano comungaram com mitos indígenas para criarem uma nova atmosfera: o reino do Novo Mundo em que árvores de pau-brasil tingiram histórias com novos rumos. Novas teias para serem tecidas no silêncio, ao som de uirapurus e urutaus, e sob as asas de urubus e harpias. Aos italianos daremos toda uma outra série própria que já vem sendo escrita, pois Lupércus realmente nos chama, assim como Woden e Karneios. No entanto, seguimos para as terras de Portugal, onde os deuses lusitanos estiveram em síntese quer com os celtas quer com os romanos. O povo lusitano adoptou os cultos de ambas as civilizações, influenciando deste modo as crenças locais. Algumas divindades lusitanas foram assimiladas pelos romanos.
A mitologia portuguesa é herdeira de um caldeirão de povos e culturas, com mitologias bastante diversas entre si, que deixaram um fértil legado imaginário. Engloba o conjunto de narrativas maravilhosas e lendas sobre personagens e suas façanhas, fenómenos naturais e objectos extraordinários ou regiões fantásticas, com características sobrenaturais, transmitidas de geração em geração, no decorrer dos séculos, tanto no campo literário como no da tradição oral.

A mitologia portuguesa tem como base a mitologia dos povos autóctones da Lusitânia pré-romana, legado este que não sobreviveu à conversão para o cristianismo. No entanto, é possível que alguns elementos tenham sido preservados e cristalizados nos contos e tradições populares, assim como em diversos hagiotopónimos. Como afirmou Leite de Vasconcelos:

“[…]seria fácil mostrar como das épocas mais antigas da Lusitânia, ainda mesmo dos tempos pré-históricos, até hoje se têm mantido muitas crenças, costumes, etc., e como a maior parte das lendas da nossa Igreja e usos cristãos derivam do paganismo.”

A mitologia lusitana, sob a forma de testemunhos esculpidos na pedra, revela a existência de uma miríade de divindades das quais se destacam Atégina, Bandua e Endovélico.

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Cabo de São Vincente

Estrabão, nos raros relatos sobre os costumes nativos, diz que no cabo Sagrado, o lugar onde os deuses reuniam-se de noite, havia diversas pedras, amontoadas em grupos de três ou quatro, que eram viradas ao contrário pelos visitantes e que, após um ritual em que estes ofereciam uma libação, as pedras tornavam a ser reviradas na sua posição anterior.

Este cabo é o ponto mais a ocidente, não só da Europa, mas de todo o mundo habitado. (…) Além disso, o país adjacente a este cabo é chamado de “Cuneus” na língua latina, logo significando a sua forma de cunha. Mas para o cabo em si, que se projeta para o mar, Artemidoro (que visitou o local, como ele diz) assemelha-se a um navio; e ele diz que três pequenas ilhas ajudam a dar essa forma, uma dessas ilhas ocupa a posição do bico do navio, e as outras duas, que têm locais de ancoragem algo bons, ocupam a posição de cabeças-de-gato. Quanto a Héracles, diz ele, não existe nem um templo seu para ser visto no cabo (como Ephorus diz erradamente), nem um altar em sua honra, ou para nenhum outro deus, mas somente pedras em muitos locais, deitadas em grupos de três ou quatro, que de acordo com um costume nativo são giradas por aqueles que visitam o local, e então, depois de derramar uma libação, são movidas de volta. Não é regra, diz ele, ocupá-lo durante esse tempo; mas aqueles que vêm ver o lugar passam a noite na aldeia vizinha, e então entram no lugar de dia, levando água com eles, dado que não há água lá.

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Moledro, que remete aos Fiéis de Deus, pequenos montes de pedras na beira das estradas de Portugal nos locais em que antigamente eram enterrados os justiçados. Havia o costume do viajante que passasse por ele, rendesse preces e jogasse uma pedra no monte. Um costume que se mantinha para que o morto não voltasse a este plano, pois Fiel de Deus era também o nome que se dava na Galiza a espíritos vagantes nocturnos.

Este seria um dos relatos mais antigo de um culto das pedras, penedos e montanhas que a tradição preserva ao longo do tempo em crenças como a da procissão infantil para pedir chuva, nos moledros dispersos pelas paisagens, nos Fiéis de Deus venerados nas beiras dos caminhos, na pedra de raio que Solino comenta ser objecto de culto pelos lusitanos, ou mesmo na lenda da pedra-moura. Associada a um culto solar ou ritual de fecundidade, a Nossa Senhora d’Antime, também chamada Senhora do Sol, uma pedra tosca de granito metamórfico, apenas com o rosto esculpido; é a sobreposição de um culto cristão a um ritual pagão.

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Frade de Pedra

Os frades de pedra são associados a um culto fálico pré-romano, também identificado nas estátuas-menir da idade do bronze, assim como a tradição do levantamento do mastro. Esta tradição tem várias formas em Portugal e no Brasil. Em Fonte Arcada, Penafiel, esta tradição é celebrada no dia 25 de julho. A celebração começa com o abate de uma árvore pelos homens da aldeia. Seguidamente ela é transportada através da aldeia e levada até ao alto do monte de S. Domingos. No alto do monte, a árvore é decorada com flores e levantada, permanecendo aí hasteada e fincada no solo até quinze dias depois da festa de São Domingos que se realiza a 8 de agosto. O “levantamento do mastro” é uma tradição ancestral que simboliza a fertilidade masculina da aldeia. O “mastro” é escolhido sempre pela mesma pessoa. A arvore é derrubada com um só machado, que passa de mão em mão. A dimensão do tronco ultrapassa frequentemente os 30 metros de comprimento. Depois tira-se-lhe a maior parte da ramagem e apoia-se o tronco em cima de traves. A seguir é carregado às costas por 70 homens. Antes de chegar ao lugar mais alto do lugar, a árvore percorre toda a povoação para que seja tocada por todos os homens.

O ritual do levantamento do mastro representa fertilidade masculina, os homens da região acreditam que ao tocarem o tronco conservam vigorosas as faculdades sexuais. No alto do monte o mastro, antes de ser erguido, é enfeitado com hortênsias coloridas, apanhadas pelas mulheres e crianças da aldeia, e depois levantado ao ombro com o auxilio de cordas que são entrelaçadas no tronco e soltas com um simples puxão sem desmanchar o enfeite de flores.

O ritual atrai centenas de pessoas de outras regiões, muitos homens se deslocam para acariciar o tronco de árvore. O ritual realiza-se também nas localidades vizinhas de Parada, Cete, S. Lourenço e Paço de Sousa. Em Paço de Sousa, o mastro é pintado de azul e branco e fica de um ano para o outro.

Em Guimarães esta tradição é chamada de cortejo do Pinheiro, é celebrada no dia 29 de novembro, culmina com o enterro do pinheiro, e é parte integrante das Festas Nicolinas. O Pinheiro é um símbolo fálico tradicionalmente conduzido apenas pelos homens da cidade. Esta tradição terá sido integrada nas festas religiosas cristãs e depois levada para o Brasil pelos colonos, onde é executada em Goiás (Pirenópolis) e Sergipe (Capela).

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O culto das cabeças cortadas representado nas esculturas e artefactos galaico-lusitanos que supõe-se ser um ritual religioso de origem celta, relacionado a divindades associadas a cultos agrários, funerários e guerreiros ao qual Rafael Loureiro indica haver uma continuidade na tradição das caveiras iluminadas, que chamam-se em Portugal de coca ou coco. Um ser que Gil Vicente chama de demo no Auto da Barca do Purgatório e que foi ao longo dos séculos representado nas festas do Corpo de Deus por um dragão e nas procissões pelo faricoco e que deu o nome a um traje ainda em uso no início do século XX, a coca. A coca é um ser mítico, uma espécie de fantasma, bruxa ou bicho-papão com que se assustam meninos. Embora não tenha uma aparência definida, este ser assustador tinha uma representação figurada, a sua cabeça era uma espécie de abóbora ou cabaça da qual saía luz (ou fogo). A representação da coca era feita com uma panela ou abóbora oca em que se faziam três ou quatro buracos, imitando olhos, nariz e boca, e em que se colocava uma luz dentro e deixava-se, durante a noite, num lugar bem escuro para assustar crianças e pessoas que passavam.
A coca é um ser feminino, o equivalente masculino é o coco embora ambos acabem por ser dois aspectos do mesmo ser, e confundem-se um com o outro na sua representação e no seu papel de assustar meninos; como nenhum destes seres tem uma forma definida toma-se um pelo outro.
O mito do Coco teve origem em Portugal e na Galiza. Segundo o dicionário da Real Academia Espanhola, “el coco” (também chamado de “el cuco” na América Latina) teve origem no fantasma português:
“(Del port. côco, fantasma que lleva una calabaza vacía, a modo de cabeza). Fantasma con que se mete miedo a los niños”.

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Cabeça cortada galaico-lusitana.

A palavra coco é usada em linguagem coloquial para significar a cabeça humana em português e espanhol. Coco também significa crânio. A palavra “cocuruto” em português significa a coroa da cabeça e o lugar mais alto. “Gogo” em basco significa espírito. Na Galiza “crouca” significa cabeça, deriva do proto-celta krowkā-, e tem a variante “croca”; e quer coco ou coca também significam cabeça. São cognatos o córnico “crogen” que significa crânio, o bretão “krogen ar penn” que significa crânio, e o irlandês “clocan” que também significa crânio.

Segundo Rafael Loureiro, a tradição de esculpir abóboras com rostos é uma tradição milenar na Península Ibérica que remonta ao tempo dos celtiberos, um costume parecido ao que Diodoro Sículo atribuía aos guerreiros Iberos na batalha de Selinunte em 469 a.C., que penduravam nas lanças as cabeças dos inimigos.

“O costume outonal e infantil de esvaziar abóboras e talhar na sua casca olhos, nariz e boca buscando uma expressão tétrica, longe de ser uma tradição importada por um recente mimetismo cultural americanizante, é um rasgo cultural antiquíssimo na Península Ibérica” ~ Rafael Loureiro

A mais antiga referência à Coca surge no Livro 3 de Doações de D. Afonso III, ano de C. de 1274:

E se per ventura algua Balea ou Baleato ou serea ou coca ou Roaz ou Musaranha ou outro pescado grande que semelhe algun destes morrer em Sesimbra ou em Silves ou em outros lugares da Ordin de El Rey.”

No norte de Portugal, a coca é representada por um dragão com escamas. Na vila de Monção, conhecida como a terra da “coca”, ela é chamada de “santa coca”, (numa alusão à santa irlandesa), ou “coca rabixa”. Na festa do dia do Corpus Christi a coca é o dragão que luta com São Jorge na representação da lenda de São Jorge e o dragão. Há referências à Festa da Coca desde o século XVI.

A tal Coca é um monstro em figura de dragão. É de arcos, cobertos de lona, e rodas por baixo, sobre as quais marcha e contra marcha. Tem asas, pontas, e uma grande cauda retorcida. A boca é de molas, e, para que se abra e feche, atam-lhe uma corda porque puxam atrás os homens que fazem andar o dragão para meter medo ao cavalo. Esta luta de São Jorge com a santa Coca é a que mais embasbaca o povo.

Segundo a lenda , quando o cavaleiro ganha o torneio, ao cortar a uma das suas orelhas com brinco e a língua, o ano agrícola será fértil; quando é a Coca que vence, assustando o cavalo, o ano agrícola será mau e haverá fome.

Na mitologia Gallaico-Lusitana Crouga (do proto-celta krowkā-) é o nome de uma divindade ainda com contornos obscuros, a quem são feitas oferendas, no entanto na inscrição de Ginzo de Limia é ao deus Crouga que eram feitas oferendas. Era o Deus da Destruição e da Magia, venerado pelos lusitanos nas zonas montanhosas do centro, hoje a Beira, encontrado o seu culto especificamente em Mangualde. Equivalente ao Deus irlandês Crom Cruaich, com provável ligação à palavra «pedra», «craic» em irlandês (gaeilge). Crum Cruaich poderá significar algo como «Cabeça Curva». Eram deuses a quem sacrifícios eram feitos, como jovem ovídeos. A Crum Cruaich, consta que também era sacrificado primogénitos de cada clã. Equivalente também ao Deus galês, Pen Crug.

Aos rituais do solstício de inverno e mesmo os que se celebram no equinócio da primavera, segundo Hélder Ferreira que lhes atribui uma origem celta, estão associadas as máscaras ibéricas, como a dos Caretos que remete à lupercália. E a esta tradição associa-se uma outra também milenar a dos Madeiros, fogueiras da Páscoa e galheiros ou cambeiros.
Os madeiros, lenhos, cepos , galheiros, fogueiras do natal ou fogueiras do Galo, são grandes fogueiras que se acendem no centro da aldeia, na praça principal ou no adro da igreja na véspera de Natal. A tradição começa com a recolha dos madeiros , que é feita pelos rapazes da terra, durante a noite em alguma regiões. Na noite de Natal depois da missa as gentes da aldeia reúnem-se à volta da fogueira para dançar e cantar. Em muitas aldeias, estas fogueiras eram mantidas acesas ininterruptamente até ao Dia de Reis. A tradição do madeiro tem origem nos cultos pagãos, na celebração do solstício de Inverno, em que se acendiam enormes fogueiras ao ar livre. Era tradição, em algumas regiões, que a lenha, os carros para transportar, e as respectivas juntas fossem roubados.A celebração faz parte da tradição dos Roubos Rituais.

Segue uma lista de alguns deuses dos celtiberos:

Atégina ou Ataegina é a deusa do renascimento (Primavera), fertilidade, natureza e cura na mitologia lusitana. Viam-na como a deusa lusitana da Lua. O nome Ataegina é originário do celta Ate + Gena, que significaria “renascimento”. Ataecina, Ataegina ou Dea Sancta, são os nomes mais comuns desta divindade. O animal consagrado a Atégina é o bode ou a cabra. Ela tem um culto de devotio, em que alguém invocava a deusa para curar alguém, ou até mesmo para lançar uma maldição que poderia ir de pequenas pragas à morte. também relaciona-se com a produção salineira, pois é encontrada relacionada com esta produções, em locais como Alcácer do Sal e em Esposende.
Atégina era venerada na Lusitânia e na Bética, existindo santuários dedicados a esta deusa em Elvas (Portugal), e Mérida e Cáceres na Estremadura espanhola, além de outros locais, especialmente perto do Rio Guadiana. Ela é também uma das principais deusas veneradas em locais como Myrtilis (Mértola dos dias de hoje), Pax Julia (Beja), ambas cidades em Portugal, e especialmente venerada na cidade de Turobriga, cuja localização é desconhecida. A região era conhecida como a Baeturia celta. No monte de S. Lourenço (Castro de S. Lourenço, Esposende – Braga) foi encontrada uma ada dedicada a Dea Sancta, e está, em princípio, relacionada com o culto ao sal à semelhança de outra inscrição, encontrada em Cáceres (Espanha).
De acordo com Juan Manuel Abascal Palazón, Ataecina é uma divindade celta, um dos muitos deuses que integram o panteão pré-romano, que manteve o seu culto densamente activo durante o Principado. Assumindo conotações locais com a adopção de epítetos, a sua popularidade seria sustentada pela frequente abreviatura do seu nome.
Assim, Ataecina é invocada por vezes como dea e como domina: Dea Domina Sancta, denominação que não é exclusiva desta divindade.
A cronologia dos testemunhos cultuais relativos a esta divindade, permite supor a sua vigência durante os três primeiros séculos do Principado. Se bem que algumas epígrafes ofereçam sérias dificuldades de datação, outras podem ser facilmente adstritas ao séc. I d. C. As cronologias mais recentes serão provavelmente oriundas das epígrafes encontradas em Alcuéscar, que poderão atingir os primeiros anos do séc. III d.C.
Relativamente ao número de exemplares dedicados a Ataecina inventariados na Península Ibérica, este ascende actualmente os 36, dos quais 15 são provenientes de Santa Lucía del Trampal (Cáceres).
Existem diversas inscrições que relacionam esta deusa com Proserpina, com o nome de Ataegina Turibrigensis Proserpina, e esta relação aconteceu durante o período romano. Muitas vezes ela é representada com um ramo de cipreste.
No contacto ente o paganismo e o cristianismo supõe-se que haja indícios de ter havido em alguns casos uma sobreposição de cultos, nomeadamente no culto à deusa Atégina que parece ter sido substituído pelo culto a Santa Eulália de Mérida, perseguida no período de Deocleciano, pela similitude dos epitáfios dedicados a ambas.

Bandonga – Deusa conhecida por uma inscrição que contém uma interessante referência a um indivíduo de nome Celtius, podendo aqui referir não tanto um nome próprio mas mais um nome de proveniência étnica, isto é, “dos Celtas”. O nome da Deusa parece comprovar esta teoria, pois Band significa em celta “ordenar” ou “proibir”, mas também um prefixo feminino (ainda hoje usado na Irlanda, com por exemplo em Banshee).

Bormanico – Deus ou Génio tutelar das águas termais; equivalente a Esculápio. O seu nome significa “faço ferver”, isto é, a água que brota nas caldas. Esta entidade pode ter um carácter iniciatório. Com efeito, «na água tudo se “dissolve”, toda a “forma” se desintegra, a toda a “história” é abolida. A imersão equivale, no plano humano, à morte e no plano cósmico, à catástrofe (dilúvio) que dissolve periodicamente o mundo no oceano primordial As águas possuem a virtude da purificação, de regeneração e de renascimento, porque mergulhado nela “morre” e, erguendo-se das águas, é semelhante a uma criança sem hubris e sem “história”, capaz de receber uma nova revelação.
Seria propício associar esse deus com Esculápio, filho de Apolo, por suas raízes etimológicas celtas. No livro  ‘A Religião dos Antigos Celtas’, podemos ler:

“Muitos deuses locais foram identificados com Apolo tanto na sua capacidade de deus de cura como também de deus da luz. As duas funções não são incompatíveis, e isso é sugerido pelo nome Grannos, deus das fontes termais, tanto na Grã-Bretanha quanto no continente. O nome está conectado com uma raiz que dá palavras que significam “queima”, “brilhar”, etc, e de que vem também o irlandês grian, “sol”. O deus ainda é lembrado em um canto cantado em rodas de fogueiras em Auvergne. Um grão de milho é incendiado e chamado “Granno mio”, enquanto o povo canta: “Granno, meu amigo, Granno, meu pai, Granno, minha mãe”. Outro deus das fontes termais era Borvo, Bormo, ou Bormanus, cujo nome é derivado de borvo, da raiz galesa berw, “fervendo”, e é evidentemente conectado com o borbulhar das águas da primavera. As Tábuas Votivas em que estão inscritos os nomes Grannos ou Borvo mostram que os ofertantes desejavam a cura para si mesmos ou para outros.”

Cariocecus, ou Mars Cariocecus, ou Ares Lusitani, era o deus da guerra na mitologia lusitana, adorado a Norte do Tejo, era o equivalente lusitano para os deuses romanos Marte e para o grego Ares. Leite de Vasconcelos esgrime entre a hipótese do elemento cario provir do celta corio que significa corpo de tropas.
De acordo com Estrabão, que não menciona Cariocecus, os lusitanos praticavam sacrifícios humanos aos deuses. Eles examinavam as entranhas e as veias do lado da vítima. Ele também praticavam a adivinhação através dos órgãos vitais de vítimas humanas, prisioneiros de guerra, que eram cobertos e, após cortarem seus órgãos vitais pelos adivinho, faziam augúrios pela forma como a vítima caía. Eles também cortavam a mão direita dos prisioneiros e ofereciam aos deuses.
Os lusitanos sacrificavam, a Cariocecus, bodes, prisioneiros de guerra e cavalos, e também ofereciam hecatombes, no modo grego, como dizia Píndaro, ofereciam uma centena de cada tipo. É possível que exista uma estreita analogia entre a iniciação cavaleiresca e a simbólica do cavalo como veículo da demanda espiritual. Neste sentido, o cavalo era o símbolo do guerreiro, daquele que se eleva ao céu pelo seu triunfo ou pelo seu sacrifício.

Durbedicus – Nome decomposto em Durb (irl. ant. drucht, “orvalho”) + ed + icus, estes últimos sufixos comuns entre os celtas. Seria assim, “o Deus que goteja”, ou seja, um Deus ligado à àgua, de uma fonte ou do rio Avus, que passa perto de Ronfe, onde a inscrição foi encontrada.

Endovélico – O mais conhecido dos Deuses Antigos da Lusitânia, semelhante ao Deus celta Sucellus (lê-se Suke-los) de cujo o culto existem vestígios. O seu templo no outeiro de S. Miguel da Mota, perto de Terena no Concelho do Alandroal, no Alentejo, foi estudado abundantemente. Investigações recentes mostram que Endovellico está presente numa área geográfica maior do que se julgava e revelaram inclusive novos locais de culto de origem nitidamente indo-europeia, pelo que a atribuição de Endovellicus aos celtas é por muitos aceite. Leite de Vasconcelos explicou que o nome céltico Andevellicus, compara-o com nomes galeses e bretões, dando-lhe o significado “o Deus Muito Bom” curiosamente o mesmo espíteto do deus irlandês Dagda. Atribui-se-lhe a característica de Deus tópico do outeiro onde seu culto se realizava e também de um Deus da Terra e da Natureza. De origens antigas, foi no período celta que melhor se definiu (e daí o seu nome céltico), tendo os romanos prestado homenagem e culto, como se comprova pelos numerosos ex-votos por eles deixados. Endovélico poderá ter sido o Deus principal de uma Trindade juntamente com Atégina e um Runesocesius. As provas arqueológicas remetem-nos para uma divindade do mundo subterrâneo dotada para a profecia e protectora da vida após a morte.

Nabia é, tal como Tongoenabiagus, uma divindade da água e dos rios na mitologia galaica e lusitana, pois existem vários com esse nome em alguns lugares em que apareceram as inscrições onde também passam rios. Seu nome significa “água corrente”. O rio Navia, na Galiza, o rio Neiva, perto de Braga (antiga capital da Galécia) e o rio Nabão que passa por Tomar, no centro de Portugal, foram baptizados em sua homenagem. Nabia era especialmente adorada entre os Brácaros, tal como é comprovado pelas inscrições epigráficas em língua céltica da Fonte do Ídolo em Braga (Bracara Augusta) e latina de Marecos (Penafiel).

Nantosvelta era uma deusa celta da natureza e da caça, esposa de Sucellus, assimilada pelos romanos como sendo Diana. Pelo menos um baixo-relevo dela foi encontrado na Alemanha. Nantosvelta era também a deusa da Natureza entre os lusitanos.

Runesocesius – Deus da região eborense referido como Runesus Cesius, sendo a segunda partícula um epíteto. Atribuem-lhe origem céltica e significa “O Misterioso” do irlandês antigo Run-, “mistério”, e/ou de “armado de dardo”, que seria o seu epíteto segundo um mote celta. Ora, “O misterioso” pode ser considerado “O Deus”, sendo assim Runesocesius “O Deus dos Dardos” ou “O Misterioso armado do Dardo”. O seu carácter guerreiro é indiscutível.

Salqiu é um Deus guerreiro da morte e dos mundos inferiores venerado pelo povo Lusitano.

Sucellus (Gaulês) – Deus da Agricultura, das Forestas e das bebidas alcoólicas (é muitas vezes representado a carregar um barril de cerveja, (suspenso numa estaca), e um martelo de Deus. A sua consorte é Nantosvelta.

Tongoenabiagus – Deus da(s) fonte(s) dos juramentos, (o seu nome significa Deus da fonte que se jura). Existe na cidade de Braga uma fonte dedicada a este Deus, pelas promessas feitas junto da mesma. Compreende-se, portanto, que se fizeram juramentos por Ele, junto da fonte(s) da sua Invocação. E quem jurava, diria pouco mais ou menos o que num texto antigo da Irlanda acerca do festim de Bricriu (Fled Bricrend) se diz: “tong a toing mo thuath” (juro o que jura o meu povo). Compreende-se assim, que se fizessem juramentos por Tongenabiago, junto da fonte da sua invocação. Interessante notar que vários deuses são associados a rios específicos ou a fontes em geral, assim como os deuses das terras célticas da Grã-Bretanha, das proximidades do rio Camlad (Camlad Rouning). As águas estão associadas aos mistérios da génese dos Grandes Deuses (Kabeiroi), do Abismo Primordial, da Travessia das Esferas, da Barca — e do alquímico Duplo Pelicano do Azoth, as chamadas Águas Vivas. A invocação desses deuses nas proximidades de rios e do mar, traria um aumento da presença do azougue (Ad Azougue ou At Azoth), tornando terras e almas férteis para as sementes do espírito. Azougue é cognato de feitiço ou augúrio em Portugal.

Trebaruna – Divindade inicialmente doméstica, passando depois para a sua função mais conhecida de Deusa Guerreira, da batalha e da morte em batalha. Muitas inscrições referem-se a esta característica da nossa deusa. O nome, explica-o d´Arbois de Jubainville, eminente celtista do princípio do século, por Trebo + runa, isto é, “Segredo da casa”.

Turiacus – Divindade dos Gróvios (povo de Entre-o-Douro-e-Minho), decompõe o nome em Turius + acus, e compara-o com uma inscrição irlandesa (Tor í rí no tighearna). É um Deus Poderoso, relativo ao poder, pois tor, significa, Rei ou Senhor.

Nas próximas publicações será explorado mais do panteão autóctone do próprio Brasil.
Que os deuses nos encaminhem bem pelos seus labirintos…
concentrateonthissigil
~ Comunidade Avernal da Canídea, Pacto da Alcatéia

Referências:

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