Soldados da Besta: Os Berserkers e a Expansão Viking

Wotan


Furor teutonicus 
(“Fúria teutônica”, denominação feita pelos cronistas romanos sobre o impulso dos germânicos em combate).

Wodan… id est furor (“Wotan… isso significa fúria”).
~ Bispo Adam de Bremen, século XI. {A ira é o “quarto pecado” cristão}

A furore normanorum libera nos, Domine. (“Da fúria dos nórdicos livrai-nos, Senhor”).
~ Oração medieval.

“O número de barcos está crescendo. O fluxo interminável de vikings continua a aumentar. Em todo lugar os cristãos são vítimas de massacres, incêndios e saques. Os vikings conquistam tudo em seu caminho. Ninguém pode lidar com eles. Eles tomaram Bordéus, Périgord, Limoges, Angoulême e Toulouse. Angers, Tours e Orleães foram destruídas. Uma incontável frota vela Sena adiante e o mal domina o país. Rouen ficou deserta, saqueada e queimada. Paris, Beauvais e Meaux foram conquistadas; as fortificações de Melun foram derrubadas; Chartres está ocupada, Evreux e Bayeux saqueadas e muitas outras cidades sitiadas”.
Ermenary de Noirmoutier — França, década de 860.

A história dos povos indo-europeus ensina-nos que toda grande obra vem em primeiro lugar do bárbaro “autêntico” e incontaminado, e das alianças de guerreiros ou männerbunden, que são as únicos capazes de mudar o mundo e o tempo através da ação direta. Neste escrito, os mais notáveis representantes do bárbaro indo-europeu e das alianças de guerreiros serão discutidos.

A IRA SAGRADA NA TRADIÇÃO INDO-EUROPEIA

De onde procedia a lendária e furiosa força dos antigos indo-europeus, nossos antepassados, tão unidos a seus deuses e à Natureza? Na antiguidade, há numerosas referências a essa força, que é descrita como uma espécie de fúria. A ira divina é todo um arquétipo: os iranianos chamavam aesjma à fúria sagrada, e os indo-iranianos, ishmin. Na Índia também se descrevia o mada — a embriaguez divina produzida pela bebida mística soma. Na Grécia, encontramos o menon ou menis, a ira apaixonada que só Aquiles, o maior guerreiro de todos os tempos, possuía [1]. Também vem da Grécia a “cólera divina de Dionísio”, que inicialmente tinha a ver com a glorificação dos instintos relacionados ao culto da vida ascendente. A mania, ou seja, a explosão do furor dionisíaco, teria levado as almas dos possuídos em uma fuga em direção às Montanhas Trácias, que representavam uma Hélade primitiva, ancestral e bárbara. No mundo celta nós nos encontramos com o herói irlandês Cúchulainn, do qual se apoderava do warp-spasm (“espasmo que deforma”, ou espasmo de fúria) em momentos de guerra, dando-lhe um impulso sobrenatural. Isso, enfim, nos mostra que a ira sagrada não era exclusivamente uma herança germânica, mas procedia de uma fonte ainda mais antiga, e que em todos os povos indo-europeus havia círculos masculinos que cultivavam a força da fúria de combate.

Os germânicos, um povo indo-europeu do sul da Escandinávia, foram talvez os últimos europeus a cultivar abertamente a ira sagrada de forma tribal. O nome do deus Wotan refere-se diretamente à fúria. No alemão moderno, wut significa “ira”, no inglês moderno, wrath tem o mesmo significado, e no gótico, wods significava “possuído”. Wotan seria, então, a “ira de An”. An é uma sílaba arquetípica; assim os sumérios chamavam sua divindade principal [2].

A ira divina não era então um conceito novo, nem algo que desapareceu. Quando algo sagrado, uma canção, uma paisagem, uma cerimônia, uma paixão, uma pessoa, uma situação, nos lembram um certo instinto interior, o que emerge é um tipo muito especial de sentimento: a união de fúria e alegria, o sentimento que faz com que os guerreiros de todos os tempos alcem suas armas ao céu e lancem seus gritos ao vento, o sentimento dionisíaco que está na música e nas canções, que nos faz sentir mais vivos e mais poderosos, o glorioso sentimento de honra, orgulho e contato com o Eterno, que acelera nosso coração e faz com que fiquemos arrepiados. “Almas ardendo”, chamou Leon Degrelle. “Fogo no sangue”, podemos chamar quando falamos de ocasiões em que “ferve o sangue”. É a chama espiritual que se opõe ao avanço do gelo materialista e niilista, o “ardor guerreiro” do qual até hoje é cantado no hino da Infantaria.

 

O PAPEL DOS BERSERKERS NO MUNDO GERMÂNICO

Os berserkers estão associados à germanidade, ou seja, ao conjunto de tribos germânicas. Estas incluem escandinavos, anglo-saxões, holandeses e alemães. Situamos em uma época em que os vikings, ainda pagãos, aterrorizaram seriamente uma Europa castrada pelo Cristianismo, e em que o Império Romano desapareceu por séculos. Geralmente, os viking desprezavam os cristãos e os cristãos temiam os vikings. Em uma ocasião, alguns vikings sequestraram um bispo. Quando não obtiveram o resgate por ele, mataram-no batendo-o com crânios animais. Eram almas ainda selvagens e incontaminadas, possuídas por aquela mentalidade brutal e vigorosa tão característica da Natureza.

Entre todos esses bárbaros, os mais fieis guardiões da fúria sagrada eram os bersekers. Esta palavra sobreviveu no vocabulário das nações que conheceram esses homens: na Inglaterra, berseker ainda designa uma pessoa de caráter selvagem ou indomável, ou um estado de raiva irracional. Berserkr pode ser traduzido como “camisa do urso” (bear shirt no inglês moderno), ou “sem camisa” (bare shirt). Vem do fato que os bersekers lutavam ataviados com peles do urso, e às vezes semi-despidos ou despidos.

Entre os antigos, todo homem era um guerreiro. No entanto, não era durante toda a sua vida, mas que era chamado em tempos turbulentos, enquanto que na paz dedicado-se a seus trabalhos de campo ou domínio. Este era o caso em todo o mundo antigo — exceto o Egito, Esparta, Roma, o Império Bizantino e algumas outras exceções, que tinham exércitos “profissionais”. Na germanidade, entretanto, havia uma casta curiosa aparte, os artistas da guerra, considerados tocados pela Divindade.

Alguns guerreiros selecionados viviam em pequenas comunidades, isoladas dos centros populacionais e lideradas por um sacerdote do culto de Odin/Woden/Wotan de acordo com a região, um bardo, um gothi (druida), um vikti (mestre das runas) ou outro Tipo de xamã, bruxa ou mago tribal. Eles formavam seitas autênticas no mundo germânico, como parte da tradição das männerbunden, uniões de homens, alianças de guerreiros, irmandades militares ou, como o romeno Mircea Eliade os chamou, “sociedades secretas de homens”.

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Capacete viking com máscara de malha para proteger o rosto. A fantasia de capacetes com chifres vem de uma lenda negra européia. Foram os celtas (e muitos cavaleiros medievais) que usavam capacetes com chifres, e muitas vezes mais como ornamentos cerimoniais do que como capacetes de combate.

Nas famílias da aristocracia alemã, havia uma tradição semelhante à dos oráculos na Grécia: quando a criança nascia, um sacerdote realizava um ritual através do qual seu destino podia ser vislumbrado. Podemos supor que alguns pais dos bebês mais promissores foram oferecidos para criá-los em uma comunidade “militar” deste tipo. Isso não aconteceria imediatamente, mas em uma idade um pouco mais tarde. Quando a idade chegava, o xamã correspondente seria apresentado para levar a criança para sua nova vida na floresta, onde ele iria aprender a adquirir os instintos do predador.

Desde a tenra idade, ao futuro berseker era colocado no pescoço um anel de ferro que estão relacionados com as torques celtas e não seria removido até que matasse a sua primeira vítima. O tipo de instrução dada a eles não é completamente conhecido, mas basicamente seria uma espécie de acampamento militar e ascético no estilo espartano, no qual eram ensinados a lidar com armas, em combate corpo a corpo e na vida na Natureza, além de adquirir dureza e resistência contra todos os tipos de privação, no âmbito de uma vida de caçador-coletor. Eles também aprenderiam técnicas e danças tribais projetadas para gerar grandes quantidades de adrenalina. Ao longo dos anos, eles estavam construindo o corpo do guerreiro, acostumado à fadiga, à privação e ao sofrimento. E tudo isso combinado com alguma forma desconhecida de yoga: uma das habilidades que eles conseguiam através de seu ascetismo misterioso era, sentado na neve durante uma nevada ou nevasca, derreter com seu próprio calor interno a neve que caia sobre eles. Este teste avançado ocorre, ainda hoje, entre alguns lamas tibetanos (o exercício de respiração que eles usam para gerar calor é chamado de thumo ou “fogo interior”), e nas lendas celtas, um dos atributos atribuídos aos grandes heróis eram derreter a neve a cem pés de distância (30 m) com seu próprio calor corporal. Um caso interessante, que data da Irlanda no ano 700 AEC, é o do herói folclórico Cúchulain. A lenda diz que, depois de uma batalha, Cúchulain voltou para sua cidade, mesmo em pleno frenesi de combate. Seus compatriotas, temendo que ele matasse toda a cidade, lançaram-se sobre ele e colocaram-no em um barril de água fria. Pelo ardor do herói, a água quebrou as tábuas de madeira e tiras de metal, e estourou o barril em mil pedaços, como “o barulho de nozes quebrando”. No segundo barril de água fria, Cúchulain produziu grandes bolhas como punhos. E no terceiro, produziu um furúnculo no qual alguns homens podiam suportar submerger suas mãos e outros não. Isso inevitavelmente nos lembra ao Herácles grego, que teve que correr para as águas das Termópilas para saciar um ataque de fogo interno, transformando as águas do lugar em fontes termais.

Os bersekers recebiam iniciação em um culto que poderia ser chamado de mistérios de Odin, o padrão desses guerreiros. Os bersekers eram muitas vezes chamados de “homens de Odin” ou “lobos de Odin” pelo seu culto predominante a esta divindade, denominado “pai de todos”. Os bersekers, portanto, poderiam ser descritos como seitas de guerreiros de elite, severamente treinados desde cedo nas artes da luta e da alquimia interior, e iniciados num culto de Odin por algum tipo de ritual extremamente violento. Mircea Eliade especificou que:

 

“Não se torna “berserkr” apenas pela bravura, pela força física ou pela dureza, mas também por uma experiência mágico-religiosa que mudava radicalmente o modo de ser do jovem guerreiro. Ele devia transmutar sua humanidade através de uma aproximação de fúria agressiva e aterrorizante, que assimilava-o aos carniceiros furiosos. “Ele esquentava” em grau extremo, transportado por uma força misteriosa, desumana e irresistível, que seu impulso combativo fez emergir das profundezas de seu ser”[3]

Em combate, os bersekers pareciam aterrorizantes para seus inimigos. Vestidos com peles de urso ou de lobo (caso em que eram chamados ulfhednar ou ulfsark, “pele de lobo”), nus ou pintados de preto, iam em batalha sempre em grupos de doze [4], gritando como possuídos, espumando pela boca e sendo imune às feridas mais terríveis.

 

Na Saga dos Inglingos (Capítulo VI), fala-se deles, dizendo:

“Os homens de Odin marcham sem cotas de malha, e eram loucos como cães ou lobos. Mordiam seus escudos, e eram fortes como touros ou ursos selvagens. Matavam a seus inimigos com um só golpe, e nem o fogo ou aço podia detê-los. É isso que chamam de fúria do berserkers”.

No Hrafnsmál, o escaldo Thorbjörn Hornklofi os descreve no combate:

“Lá os bersekers gritavam — a batalha foi desencadeada —, os peles de lobo uivavam selvagemente, as lanças assobiavam (no ar)… peles de lobo, eles eram chamados. Eles são vistos agindo, seus escudos sangrentos. As espadas rugiram quando chegaram à batalha. O rei sábio na luta é feito para proteger por heróis rudes que levantam seus escudos”.

 

O BERSERKERGANG OU POSSESSÃO 

Antes da batalha, os bersekers entravam juntos em um transe chamado berserksgangr ou berserkergang. Este transe era processo de possessão, para o qual nem todo mundo estava preparado, porque sua energia poderia destruir o corpo do profano. De acordo com a tradição escandinava, tal estado de êxtase começava com um calafrio sinistro que percorria o corpo do possuído e o deixava ouriçado e arrepiado. Isto era seguido pela contração muscular, um tremor premonitório, aumento da pressão arterial e da tensão, e uma série de tiques nervosos no rosto e pescoço. A temperatura corporal começava a subir. As narinas dilatavam. A mandíbula se constringia e a boca se contraía em uma careta psicótica revelando os dentes. Então vinha um inquietante rechinar dos dentes. O rosto inchava e mudava de cor, terminando em um tom roxo. Começava a espumar pela boca [5], grunhir, rugir e gritar como animais selvagens, a morder as bordas de seus escudos, golpear seus capacetes e seus escudos com suas armas e rasgar suas roupas, invadidos por uma febra que tomava posse deles e os transformava em uma besta, seu cego instrumento. Assistir a tal transformação devia ser algo realmente alarmante e angustiante, evocando o pânico mais urgente. Era uma transformação iniciática em toda regra, e alguns viram nela a origem das lendas dos lobisomens.

Após este processo, os bersekers recebiam o Odr ou Od (chamado Wut na Germânia e Wod na Inglaterra), a inspiração que Odin concedia a alguns guerreiros, iniciados e poetas, tocando-os com a ponta de sua lança Gugnir (“estremecedora”). Com isso se transformavam em um furioso turbilhão de sangue e metal.

A força física do “inspirado” pela febre Od aumentava de forma sobre-humana e inexplicável, e também aumentava sua resistência, sua agressividade e fanatismo combativo. A dor, o medo ou a fadiga desapareciam, e o que os substituía era uma sensação inebriante de vontade, poder imparável e desejo de destruir, matar, aniquilar e derrubar. Uma boa referência à versão celta do berserkergang, podemos encontrar no “Táin Bó Cúailnge“, que descreve a transformação do herói Cúchulain antes das batalhas:

“O espasmo de fúria apoderou-se dele: parecia que cada fio de cabelo estava ouriçado na cabeça, pois todos os fios estavam vertical, e era possível jurar que um ponto de fogo coroava a ponta de cada fio. Um de seus olhos fechou até que não ficasse maior do que o buraco de uma agulha, enquanto o outro abriu até se tornar tão grande quanto uma copa. Suas mandíbulas arreganharam até suas orelhas, e escancarou os dentes até mostrar suas gengivas. O halo do herói subiu da coroa de sua cabeça”.

Os bersekers passavam a lutar furiosamente sem se preocupar em absoluto com sua própria vida ou segurança física. Muitos preferiam levar uma espada e um machado em vez de uma única arma com o escudo [6]. Em grupos de doze, eles avançavam ferozmente contra o inimigo, independentemente da sua inferioridade numérica, e as feridas que matariam qualquer pessoa não os agitaram nem um pouco. Em casos de defesa contra multidões esmagadoras, formavam um círculo impenetrável do qual batiam até a morte do último homem.

Se imaginarmos a aparência daqueles homens carregados de músculos, veias, nervos e tendões, com os rostos torcidos sob a pele da besta, os fanáticos olhos claros arregalados e brilhando com aquele acies oculorum que Júlio César e Tácito observaram entre os guerreiros germânicos; os dentes cerrados com fúria e espumando, salpicados de sangue inimigo… nós entenderemos imediatamente que aqueles guerreiros não tinham nada a ver com o homem ocidental moderno. Estes bersekers eram do mesmo sangue que muitos europeus modernos, mas eram homens que viviam para a guerra, enquanto o ocidental médio de nossos dias é um afeminado mole que vive para a paz e, em sua miopia, persiste em acreditar que sabe tudo sobre o mundo e a vida.

WutWodeOd ou berserkergang era um transe terrivelmente intenso e violento, no qual o controle e a razão eram completamente perdidos, e em que a besta era libertada de suas correntes de ferro para desabafar sua claustrofobia e cavalgar na gloriosa e desenfreada liberdade através da floresta escura e borrada, sem responsabilidades, sem laços, sem limites e sem leis. Não se tratava apenas de deixar aflorar a besta interior, mas de deixar-se possuir pela divindade absoluta e externa. O corpo do guerreiro, nas mãos dessas forças tempestuosas, e totalmente desconectado da mente racional, era um simples fantoche que dificilmente poderia lidar com tanta raiva.

Os afetados poderiam ficar durante horas e mesmo dias lutando da maneira mais furiosa e amarga sem parar um único momento. De fato, graças à sua brutal contribuição, as batalhas terminavam muito cedo, e os bersekers não conseguiam parar de lutar, precisando exalar sua fúria, correr sem parar de gritar e descarregando suas armas contra árvores, pedras, animais ou mesmo pessoas. Atacando membros de seu próprio exército (embora os bersekers aparentemente nunca se atacassem), já que nesses estados eles não distinguiam entre amigos e inimigos.

No entanto, quando o berserkergang passava, eles caíam em um estado de fraqueza total, em que eles eram incapazes de defender-se ou mesmo de se levantar. Esta ressaca durava vários dias, em que o guerreiro tinha que ficar de cama. De acordo com as sagas escandinavas, muitas vezes seus inimigos costumavam matá-los nesses momentos. Alguns bersekers, sem ter recebido nenhuma ferida, morriam após a batalha pelo esforço sobre-humano realizado: seus corpos não estavam preparados para ser instrumentos da fúria divina — pelo menos por um tempo muito longo. A expectativa de vida era encurtada por muitos anos após cada “sessão” de berserkergang.

Outro atributo atribuído à posse do berserkergang era “desativar as armas do inimigo”, o que provavelmente implicava que os bersekers eram tão rápidos, tão invulneráveis, e inspiravam tanto terror em seus inimigos eles pareciam ficar paralisados de medo ou pelos golpes ou seus golpes eram ineficazes. Da mesma forma, a aura de ira desencadeada por um grupo de bersekers marchando, fosse “sentida” a uma grande distância pelos soldados inimigos como se fosse uma onda de explosão, como o historiador romano Tácito escreveu, falando de uma männerbund germânica cujos membros eram conhecidos como harii — palavra que entre os iranianos e indo-iranianos significava “os loiros”, e que está relacionada com o Einherjar (Aina-Hariya) de Valhala:

“Os harii além do poder que têm superior a estes povos há pouco enumerados, são temíveis (insidiosos), e aumentam com artifício o seu fero aspecto, segundo as circunstâncias do momento: pretos são os seus escudos, pintados seus corpos são; escolhem as noites para os combates e pelo pavor e sombra do tenebroso exército infundem terror, nenhum inimigo resiste ao estranho e infernal aspecto: porque em todos os combates primeiramente são vencidos os olhos (pela visão)”[7]

Observamos aqui a importância do simbolismo do negro para esses homens. A noite é essencial neste simbolismo, porque simboliza a idade das trevas, este inverno escuro no qual nascemos para o bem ou para o mal. O dia, com os raios do Sol, o ouro, é propício para a vontade, para o arrojo, para a luta consciente, para erguer uma cidade, para cravar a lança no inimigo, para afundar a espada na terra — em uma palavra, para possuir, para tomar. O dia representa a mão direita, a ordem, o ritual e a “via seca”. A noite, no entanto, com a escuridão, a Lua, as estrelas, o eclipse, a água e o prata, é mais propícia à magia, a um certo caos, para a revolução, para destruir uma cidade, a deixar-se ser tomado, ser possuído, virar lobisomem, para alçar as armas ao céu em vez de fundi-las na terra, e portanto, está mais relacionada com a mão esquerda e a “via úmida”.

Uma vez que o homem não é um deus, ele deve se esforçar para se tornar, pelo menos, um instrumento cego dos deuses. Para isso, ele deve esvaziar-se de toda individualidade egocêntrica para permitir o arrebato divino, isto é, “encorajar Odin a tocá-lo com a ponta de sua lança”. E a primeira maneira de conseguir isso era instituindo uma severa disciplina, ascetismo e organização. Recordemos, com respeito à importância da noite, que o próprio Adolf Hitler falou em “Minha Luta” sobre a diferença de efeitos que seus discursos conseguiam nas multidões de manhã e à noite. Para ele, o entardecer, e especialmente as noites, eram o momento ideal para dar um discurso e afirmar seu magnetismo. Notemos também que, na SS, as cores predominantes nos uniformes e sua simbologia eram o preto e prateado. Simbolicamente, eles eram cobertos pela noite, escuridão, trovão e luz lunar e estelar. [8]

Quem havia sido possuído uma vez pelo berserkergang ficava marcado por isso. Depois disso, o transe não só vinha a ser invocado antes do combate, mas também poderia cair sobre ele de repente em momentos de paz e silêncio, transformando-o em questão de segundos em uma bola de ódio, adrenalina e gritos subumanos em busca de destruição.

Assim, na Saga de Egil descreve como o pai de Egil, um berseker, de repente sofreu posse do berserkergang enquanto pacificamente jogava um jogo de bola com seu filho e outro menino. O guerreiro, horrivelmente agitado e rugindo como um animal, agarrou o amigo de seu filho, levantou-o no ar e o despedaçou ao chão com tanta força que morreu instantaneamente com todos os ossos quebrados em seu corpo. Então ele se voltou para seu próprio filho, mas este foi salvo por uma serva que, por sua vez, caiu morta perante o possuído. Nas sagas, as histórias de bersekers são salpicadas de tragédias em que o berserkergang descontrolado se volta contra os seres mais próximos do possuído. Se tivéssemos que encontrar um equivalente grego, teríamos isso na figura de Herácles, que durante um ataque de raiva matou sua própria esposa Mégara e os dois filhos que teve com ela, o que resultou em seus doze trabalhos como “penitência” para pagar seu pecado.

No âmbito da mitologia temos muitos exemplos da fúria dos berserkers. A saga do rei Hrólfr Kraki fala do herói berserker Bödvar Bjarki, que combatia pelo dito rei e que em uma batalha se transformou em um urso. Esse urso matou mais inimigos que os cinco campeões seletos do rei. As flechas e armas o atingem, mas ele derrubou homens e cavalos das forças inimigas, desvirgando com os dentes e as garras qualquer coisa que se entrepusesse em seu caminho, de tal forma que o pânico se apoderou do exército inimigo, desagregando suas fileiras caoticamente. Essa lenda — que não deixa de ser isso, uma lenda — representa a fama que havia adquirido os berserkers no Norte, como grupos reduzidos mas, por sua bravura, perfeitamente capazes de decidir o resultado de uma grande batalha.

Agora, qual é a explicação para esses fatos, que vão muito além do normal? Em nossos dias, alguns que sempre olham com uma desconfiança ressentida qualquer manifestação de força e saúde, querem rebaixar o berserkrgang. Para muitos, os berserkers eram simplesmente comunidades de epilépticos, esquizofrênicos ou então, doentes mentais. Essa explicação ridícula não satisfaz em absoluto, dado que a epilepsia ou a esquizofrenia são patologias cujos efeitos não podem ser “programados” para uma batalha tal como faziam os berserkers, e sob seus ataques é impossível realizar ações valorosas ou mostrar heroísmo bélico. Um epiléptico faz mais danos a si mesmo mordendo a língua e caindo no chão que destroçando fileiras de um número de exército inimigos, e também pode ser reduzido por uma só pessoa. Peculiarmente, outros têm sugerido que os berserkers eram alianças de indivíduos que haviam sofrido mutações genéticas, ou eram os sobreviventes de uma antiga linhagem germânica desparecida, organizados em forma de comunidades-seitas. Inclusive se pode ter em conta a explicação “xamânica”, segundo o qual os berserkers eram possuídos pelo espirito totêmico de um urso ou lobo.

Como visto, as razões são tão variadas como diversas são as pessoas que se metem a opinar a respeito. A explicação mais conhecida, no entanto, é a de que esses homens combatiam drogados. Segundo tal teoria, os berserkers ingeriam um cogumelo chamado amanita muscária(caule de cogumelo branco e tampão vermelho com manchas brancas que abunda entre os bosques de bétulas do norte da Europa), ou alguma mistura preparada com esse cogumelo. Esse cogumelo tem uma toxicidade elevada graças a um alcaloide chamado muscarina, que altera completamente a consciência e a percepção. Atualmente ele foi catalogado como “venenoso”, dado que em doses elevadas se torna fatal. A teoria do amanita muscária foi elaborada em 1784 pelo professor sueco Samual Ödman (que sabia da utilização de cogumelos pelos xamãs siberianos) e foi descrita até certo ponto porque a mitologia germânica explicava que, segundo Sleipnir — o cavalo de Odin, de oito patas — escorria uma espuma vermelha que, ao chegar ao solo, se transformava no cogumelo. Outras teorias de drogas sugerem cerveja com meimendro preto ou cerveja contaminadas com esporão-do-centeio.

A teoria das drogas não é convivente, e entre as citadas somente a dos xamãs siberianos e o cavalo de Odin, são as únicas provas que temos para corroborar tal tese. Por outro lado, a simples ingestão de uma droga não garante por si mesma um arrebato de devastação e frenesi de guerreiro como o que experimentavam os berserkers. Se é que ingeriam efetivamente uma droga, havia sido após uma longa e dura preparação guerreira e ascética que lhes houvesse feito resistir a possessão do Od, com doses cuidadosamente pensadas por autênticos conhecedores de seus efeitos, e com ritos destinados para realçar e canalizar certos aspectos relacionados com a substância. Não é mais lógico, então, a teoria de que o berserkergang se desencadeava mediante uma espécie de “ordem hipnótica programada” que foi armazenada no subconsciente através de uma violenta e traumática iniciação ritual, e que era “ativado” automaticamente escutando o ruído das armas, os gritos de batalha e os cânticos que invocavam a fúria de Odin, dando lugar a irresistível ânsia de estar no centro do combate, ali onde a luta era mais feroz e a fúria mais densa.  Em qualquer caso, o mais provável é que as técnicas de realização do berserkrgang foram mentais ou “psicológicas”, através de processos hipnóticos e magnéticos catalisados em poderosos rituais, e seguramente amplificados através de danças tribais, movimentos, técnicas e respirações capazes de gerar enormes quantidades de adrenalina em pouco tempo. E se as drogas estavam realmente presentes, teria sido para facilitar a possessão, mas em nenhum caso eram as responsáveis direta do incrível rendimento combativo que se desencadeava com tal possessão.

As substâncias liberadas pelas drogas podem ser estimuladas no corpo mediante práticas de depuração. Nas tradições iniciáticas, quando o homem obtém controle absoluto sobre seu corpo, pode estimular seus órgãos, suas glândulas, a vontade, liberando as substâncias que deseja e causando os efeitos que quiser, apenas por saber materializar o pensamento. O ideal é que as drogas que se utilizem procedam de nosso próprio interior, pois, realmente, as drogas já estão dentro de nós — como por exemplo a testosterona, a adrenalina, a dopamina, as feromonas e as endorfinas —, no entanto, muitas vezes necessitam de um estímulo para serem liberadas. O uso religioso das drogas apareceu numa época em que a maioria de pessoas não eram mais capazes de entrar em transe de modo natural. E em qualquer caso a ingestão de drogas com fins religiosos se realizava sob um severo controle e rito, sobre indivíduos preparados física, mental e espiritualmente para aguentar seus efeitos, e tudo guardado por sábios das ciências naturais, conhecedores das plantas, dos animais e da Terra.

Durante as situações de grande estresse e violência, o corpo se perturbava. Aumenta o pulso, a respiração acelera e a adrenalina sobe como uma chama. Ocorre uma série de respostas fisiológicas que que em si mesmas não são boas nem más, mas sim que a natureza dependerá da forma que serão utilizadas. Os guerreiros convencionais “cavalheirescos”, tentam dominar a torrente de reações e sensações que lhes causava no combate, de modo que, mantendo sua vontade sobre elas, conservavam o “sangue frio” e a consciência intacta. Os berserkers, em contrapartida, pareciam fazer o contrário: se deixavam levar pelas reações físicas antes da luta, de modo que estas tomam posse deles e acabam por converte-los em bestas que “viam tudo em vermelho”. Aflorava neles uma vontade totalmente independente da consciência. Somente os melhores eram capazes de deixar-se levar de verdade pelo torrente de ferocidade, soltar seus impulsos selvagemente, perder o controle, romper todo o laço e toda atadura para deixar a besta andar livremente, saborear o profundo e primitivo prazer da matança, do sangue, da dominação, da possessão e da destruição, submergir todo seu ser no caos absoluto e sobreviver para contar — embora é bastante provável que depois sequer lembra-se claramente o que aconteceu.

Tudo isso é apenas um barbarismo selvagem? Sim, mas forma parte da natureza humana, gostemos ou não. Virar as costas para esses assuntos só serve para que logo nos peguem desprevenidos. Ignorar que temos um lado animal é como mutilar o espírito e sabotar o corpo. No entanto, aceitar isso e dominá-lo equivale a entrar em reconciliação com nós mesmos.

Enquanto se fantasiar com peles de animais simbólicos, obedece a uma tradição xamânica, totêmica e pagã até a medula, e prestaremos a atenção porque expressa uma ideia muito importante. O lobo e o urso são símbolos da masculinidade livre, pura, selvagem, fértil e desenfreada [9].  A pele do urso ou do lobo eram conseguidas combatendo com o animal corpo a corpo e o matando, do qual era uma prova iniciática dos berserkers, igual entre alguns celtas era matar um javali. Aos berserkers eram sugeridos de que se apoderavam das qualidades totêmicas inerentes ao animal em questão — urso ou lobo —, ganhando sua força e ferocidade, possuindo suas qualidades como se tivessem conquistado para si, e adotando a pele da besta vencida como símbolo desta transformação. Como símbolo de prestígio, muitos berserkers adicionavam a palavra björn (urso) a seus nomes, resultando em nomes como Arinbjörn, Esbjörn, Gerbjörn, Gunbjörn ou Thorbjörn. O lobo (proto-germânico *ulf) resultou em nomes como Adolf, Rudolf, Hrolf ou Ingolf. Mircea Eliade disse em relação à apropriação das peles de animais:

Torna-se berserkr após uma iniciação, com provas especificamente guerreiras. Assim, por exemplo, junto a tribos germânicas como os Chatt, nos diz Tácito, o postulante não cortava o cabelo ou fazia a barba antes de haver matado um inimigo. Entre os Taifali, o candidato deveria abater um javali ou um urso, e entre os Heruli deveria combater sem armas. Através destas provas, o postulante se apropriava do modo de ser do animal: tornava-se um guerreiro respeitável na medida em que se comportasse como uma fera predadora. Se transformava em super-homem porque conseguia assimilar a força mágico-religiosa compartilhada entre os (animais) carniceiros enraivecidos. [10]

Novamente, isso pode ser taxado como primitivo e bárbaro, mas os romanos também o faziam, como podemos ver nos porta-estandartes das legiões, que se cobriam com peles de lobos, ursos ou felinos selvagens (como povo indo-europeu bárbaro, os antigos itálicos, antepassados dos latinos, deviam ter sua própria versão do “guerreiro possuído”). Também o herói grego Hércules, após combater com o monstruoso leão de Nemeia e matá-lo com suas próprias mãos, se apoderou de sua pele. O irlandês Cú Chulainn matou um monstruoso mastim e ocupou seu lugar como guardião do Ulster. Siegfried, o herói da mitologia nórdica, se banhou no sangue do dragão Fafnir, matado por ele, e com isso tornou-se quase invencível. Nos mistérios de Mitra, um restrito culto militar masculino e praticado pelas legiões de Roma, os iniciados se cobriam de sangue do touro sacrificado numa cerimônia de alto poder sugestivo. Na mesma linha de exemplos relacionados, temos outros casos que se referem a “segundas peles” e banhos endurecedores. Aquiles foi banhado por sua mãe nas águas do escuro rio Estige que o tornou invulnerável. A deusa céltica Ceridwen possuía um caldeirão mágico que dava saúde, força e sabedoria para aqueles que se banhassem nele. As mães espartanas banhavam a seus recém nascidos no vinho, pois pensavam que isso endureceria aos fortes e acabaria com os fracos. As águas do Ganges, mesmo atualmente, são consideradas salutares para os hinduístas. A ideia por trás de todos esses mitos era que expor-se a forças destrutivas, telúricas e escuras ajudariam o “invólucro” do iniciado a protegê-lo no futuro contra experiências similares no campo da morte e do sofrimento.

Tudo isso simbolizava, ademais, a luta do espírito para tomar controle da besta telúrica pelo qual revestia o vencedor, adentrando em sua carcaça vazia, possuindo-a, transformando-se em sua imagem e semelhança e, por sua vez, mudando sua personalidade por uma distinta, entrando numa nova fase e simbolizando a transição para uma nova forma de perceber o mundo e de ver as coisas — uma nova pele, uma nova couraça, um novo escudo, uma nova percepção do mundo através dos sentidos da besta — , tomar posse da matéria e, por dentro, transformá-la a imagem e semelhança do espirito. Essa filosofia de possessão é um traço característico das sociedades guerreiras iniciáticas. Em certas unidades de elite da SS nazi, uma das provas era combater, sem armas e desnudo, contra um cão-lobo ou um mastim enfurecido. Como reminiscência (herança) de todos esses assuntos em pleno século XIX, cantavam os hussardos imperiais do II Reich, herdeiros das unidades guerreiras de elite do germanismo:“De preto nos vestimos/De sangue nos banhamos/Com a totenkopf no capacete/Heil! Heil/Somos invencíveis!”

Aqueles berserkers que lutavam nus se relacionavam com a conduta dos primeiros celtas, que também faziam isso (na verdade, a figura do “guerreiro possuído” também foi recorrente entre os celtas). Seus corpos, curtidos desde a infância, não sentiam frio mesmo que estivessem nus sobre a neve. Como mencionado, alguns também se pintavam de preto, reivindicando o lado escuro e feroz, próprio das eras em que a luz está perseguida. Já vimos como o romano Tácito descreveu aos harii que, pintados e com escudos pretos, se lançavam ao combate com ferocidade sobre-humana. Para os antigos indo-iranianos, o deus Vishnu, em épocas sombrias, se vestia com uma armadura escura para combater os demônios, ocultando o mundo seu aspecto luminoso; mas no amanhecer da idade do ouro, se despojaria de sua couraça negra e o mundo conheceria seu luminoso aspecto interior.

Vishnu, em sua manifestação como Kalki, O Senhor da Nêmesis.

No Irã, a männerbund dos mairya vestia armaduras pretas e carregava bandeiras pretas. Simbolicamente, diziam que matavam ao dragão, e geralmente agiam durante a noite. Os cátaros se vestiam com longas túnicas pretas, e seus estandartes religiosos eram pretos (alguns com uma cruz céltica branca em seu interior). Os SS também se vestiram de preto e usaram bandeiras pretas, além da macabra totenkopf. Tudo isso simbolizava a demonstração, por assim dizer, do domínio e conhecimento da escuridão, do qual pertence a mão esquerda, ao lado sinistro, ao medo, a morte a ao horror.
Dominar e conhecer ao inimigo é dominar e conhecer o urso, o lobo, o dragão, o touro ou o animal totêmico que o homem lutador descubra em si mesmo. Cobrir-se de preto equivale a cobrir-se com a pele da besta inimiga, pois a escuridão é a inimiga — até que não seja dominada.

A EXPANSÃO DA FÚRIA DO NORTE

Em um dado momento da Alta Idade Média, no final do século VIII, os povos escandinavos embarcaram numa série de prolificas expedições. Alguns acreditam que essa súbita blitzkrieg dos vikings se deve a uma superpopulação motivada pela poligamia, dentro de uma terra pouco fértil. Outros, como Varg Vikernes, sustentam a ideia de que as hordas vikings eram uma vingança contra o mundo cristão, depois que o bispo Bonifácio destruiu, na Saxônia, no ano de 772, bosques sagrados e, particularmente, o carvalho que os saxões consagravam à Donnar — uma árvore antiguíssima venerada por todos os povos germânicos do mundo, e que era considerado a versão terrestre do Irminsul, o Eixo do Mundo.

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Esse mapa mostra a expansão nórdica na Europa. O vermelho corresponde com as áreas de colonização escandinava, e o verde com as áreas submetidas as incursões e a influência viking. Os vikings foram particularmente prolíficos na França, nas ilhas britânicas e nas bacias dos grandes rios russos. Não estão inclusos no mapa a Groenlândia e Vinlândia (o assentamento viking na América do Norte)

A imagem do folclore e a propaganda cristã que nos chegou dos vikings deve ser corrigida. A Igreja satanizou os vikings representando eles como bárbaros sujos com chifres no capacete, sendo que segundo a “Crônica” de John Wallingford graças a seu costume de ataviar o cabelo todos os dias, banhar-se todo sábado e mudar de roupa regularmente, são capazes de minar a virtude das mulheres casadas e, incluso, seduzir as filhas de nossos nobres para transformá-las em suas amadas. Estamos falando duma época em que o Cristianismo havia estigmatizado a higiene como algo sensual e “pagão”. O historiador árabe Ibn Fadlan, embaixador de Bagdá para os búlgaros do Volga, disse dos vikings: Nunca vimos espécimes físicos tão perfeitos, altos como palmeiras, louros e de pele corada. Ele acrescenta que muitos ostentavam tatuagens no corpo inteiro, e que iam armados sempre com um machado, uma espada e uma faca.

Os vikings acabaram sendo famosos em toda a cristandade, no Leste pagão e em grande parte do mundo islâmico. Os árabes os chamaram de mayus, os cázaros de rus (daí “Rússia”) e os eslavos de varegues. Na maior parte da Europa Ocidental foram conhecidos como normandos — isto é, homens do Norte. Geralmente sua forma de atuar era zarpar em grandes frotas, saquear os povoados da costa, estabelecer “centros de operações” costeiros para planear outras incursões e navegar pelos grandes rio para chegar noutras cidades do interior (como Pamplona, Sevilha ou Paris). Numerosas de suas proezas são conhecidas, desde a colonização da Islândia, Groenlândia e América do Norte até o arrebato de Sevilha aos mouros (ano 844), seu saqueio e sua conservação durante uma semana inteira, passando pela fundação de cidades russas como Novgorod (832) e Kiev (864), assim como o primeiro estado russo (Rus de Kiev) e o sítio de Paris em 885.

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O raio do mar: durante séculos, uma frota de drakkars indo às compras foi a mais assustadora visão costeira de um europeu medieval.

911 foi o ano em que o dinamarquês Rollo [11] recebeu do rei francês Carlos III da França o ducado da Normandia, para apaziguar a pilhagem viking a que todo o norte da França estava sendo submetido. Em um ato solene de homenagem ao rei Carlos, Rollo foi informado de que ele deveria curvar-se diante dele e beijar seus pés. Ele, escandalizado e ofendido em seu orgulho, recusou-se a humilhar-se de tal maneira, dizendo que “nunca me curvarei a ninguém e nunca beijarei o pé de ninguém”. Os bispos aduladores, no entanto, insistiram que “quem receber tal dom deve beijar o pé do rei.” Assim encurralado, Rollo ordenou a um de seus guerreiros para realizar o ato. Tomou o pé do rei e, erguido, levou-o à sua boca e beijou-o, fazendo com que o rei caísse de costas, de modo que toda a corte atual riu com força. Esta anedota mostra o lado arrogante e orgulhoso dos vikings, homens ainda inocentes e incontaminados pela mentalidade servil da sociedade civilizada. Estes Vikings da Normandia se cristianizaram, arraigaram-se na França e acabaram por esquecer as suas raízes escandinavas. Sua expansão subsequente os levou para a Inglaterra, para o Mediterrâneo, para o Sul da Itália (reino normando da Sicília) e até mesmo para o Leste durante a era das Cruzadas. Muitos normandos desempenharam um papel importante nas ordens da cavalaria.

Por um tempo, os vikings fizeram a Inglaterra um reino dinamarquês. Os anglo-saxões sob o rei Alfredo de Wessex, germânico como os vikings, se envolveram com eles em uma guerra em que os vikings foram confinados ao Norte da Inglaterra, em um reino chamado Danelaw (“lei dinamarquesa”), onde regia o paganismo nórdico e onde houve uma extensa colonização de famílias vikings, de tal forma que legaram numerosas palavras ao vocabulário inglês. Alguns historiadores chamaram esta “outra Inglaterra” paralela, a “Inglaterra escandinava”. Aqui os vikings estabeleceram a capital em Jorvik (York) e dedicaram-se a enraizar ao invés da pilhagem, estabelecendo fazendas, campos de cultivo e centros de comércio.

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Danelaw e as principais áreas do estabelecimento viking na Grã Bretanha. Além das áreas designadas, toda a costa recebeu uma forte influência escandinava.

 

Mas tanto os vikings quanto os normandos disputavam a Inglaterra. A guerra estourou quando o rei Haroldo II de Inglaterra, anglo-saxão, teve que enfrentar primeiro com o rei Haroldo III da Noruega e depois com o rei Guilherme I da Inglaterra, da Normandia, que disputavam o trono. Os anglo-saxões de Haroldo entraram em confronto com os noruegueses de Haroldo Hardrada (o último rei viking da “antiga escola”) na Batalha de Stamford Bridge. Depois de vencer Haroldo III da Noruega, as tropas anglo-saxônicas de Haroldo II da Inglaterra se movimentaram cerca de 360 ​​quilômetros de Yorkshire (norte da Inglaterra) até Sussex (sul da Inglaterra), onde Guilherme os esperava com novas tropas normandas. As exauridas tropas anglo-saxãs entraram em confronto com os normandos na famosa Batalha de Hastings (1066). Por causa da falta de boa cavalaria e porque muitos deixaram a segurança do muro de escudos e lanças para perseguir os cavaleiros normandos que se aposentaram para recarregar, os anglo-saxões perderam. Haroldo II da Inglaterra morreu com o crânio perfurado por uma flecha que entrou por um olho. Foi uma tragédia para a Inglaterra.

Os “normandos” (realmente dinamarqueses afrancesados) importaram o idioma francês, contaminando o anglo-saxão e removendo-o de suas ressonâncias mais germânicas. O francês tornou-se a língua da nova corte normanda, e o anglo-saxão — ou seja, o inglês antigo — na língua dos plebeus e da aristocracia despossuída. A Inglaterra também foi infectada com a mentalidade oriental. Seu foco de atenção e relações culturais foram da Dinamarca, do norte da Alemanha e da Escandinávia, à França e ao Vaticano, e neste sentido não há dúvida de que teria sido melhor até mesmo um triunfo viking. Os normandos também importaram uma servidão feudal do tipo cristão (o que fazia sentido em lugares onde os germânicos constituíam uma aristocracia minoritária, mas não na Inglaterra, onde a maior parte da população era de origem germânica), varrendo com a antiga lei saxã, tão odiada pela Igreja que permaneceu apenas no condado de Kent, que foi o local onde os primeiros anglo-saxões (notadamente os jutos da Dinamarca) desembarcaram no século V, e onde a tradição germânica anglo-saxônica era talvez mais forte e mais arraigada. No entanto, os normandos, sem dúvida, forneceram inovações benéficas: grandes castelos de pedra com fossos e o espírito da nova cavalaria.

Os anglo-saxões, em todo caso, não se resignariam a esta situação, e muitos de seus aristocratas, liderando seu povo, participaram de uma resistência oculta contra a invasão “normanda”, que não passava de uma invasão francesa . A própria lenda de Robin Hood refere-se à luta entre anglo-saxões e normandos, em que uma männerbund anglo-saxã, encabeçada por um nobre saxão, se retira para a floresta e realiza uma “guerra de guerrilha” contra a ocupação.

A expansão viking foi tão imensa, em suma, que incluso estatuetas de Buda foram encontradas em túmulos escandinavos. Alguns autores, como o francês Jacques de Mahieu, colocaram os vikings na base de aristocracias de lugares tão distantes como o Peru e o México, e de lá casos estranhos como Quetzalcoatl, Kukulkán, Ullman ou Viracocha, deuses pré-colombianos com características europeias (como a pele branca, a barba e cabelos claros ou olhos azuis).

A partir das nacionalidades escandinavas, os noruegueses tendiam a explorar a Islândia, a Gronelândia e a América do Norte, os dinamarqueses concentrados na Inglaterra, Escócia, Alemanha, França e Irlanda, e os suecos dedicavam-se principalmente às suas aventuras no Leste, incluindo Finlândia, Rússia, as guerras contra os cázaros e tártaros, e suas façanhas no mundo islâmico e bizantino.

Agora, os não-vikings consideravam os bersekers como a máxima expressão desta ira do Norte que se espalhava como pólvora por toda a Europa. A própria imagem arquetípica do viking sanguinário que luta seminu e mata indiscriminadamente corresponde mais ao berserker do que ao atual guerreiro viking. A fama e o prestígio dos bersekers no Norte eram enormes. Eles eram guarda-costas em vários tribunais reais, incluindo o do rei Haroldo I da Noruega. O rei Hrólfr Kraki da Dinamarca enviou seus doze bersekers ao rei Adelo da Suécia para ajudá-lo em sua guerra contra Ali da Noruega. Depois das campanhas militares vikings, ao contar as baixas, os capitães militares não se preocupavam em contar os bersekers, já que se supunha que eram invencíveis depois de lançarem feitiços que os tornavam invulneráveis ​​ao ferro e ao fogo, ou eram capazes de desativar as armas do inimigo com o olhar.

Tal fama veio para o Oriente, de modo que o imperador bizantino Constantino — um homem poderoso com numerosos meios e que queria o melhor — tinha contratado uma guarda pessoal seleta exclusivamente composta de bersekers suecos. Eles eram conhecidos como a “guarda varegue”. (Com o tempo, a guarda ficaria tão cheio de guerreiros anglo-saxões que ficaria conhecida como “guarda inglesa”). Como Constantino escreveu, esses homens ocasionalmente realizavam a “dança gótica”, vestido com peles de animais e máscaras totêmicas.

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A guarda varegue, conhecida como pelekiphoroi phrouroi (“guardiões armados com machados”) destacou-se gloriosamente em Constantinopla (Miklagard para os escandinavos).

E é que o paganismo escandinavo conservava um xamanismo saudável, profundamente relacionado com a Natureza e com Asgard, o céu dos deuses. De acordo com a mitologia germânica, os bersekers caídos formavam no Valhala a guarda de honra de Odin, pelo que em sua vida terrena tentavam refletir e “treinar” essa vocação protegendo a numerosos reis cuja figura de poder estava associada a Odin.

A guarda varegue tornou-se famosa em uma série de campanhas contra os muçulmanos, em um dos quais os varegues devastaram nada mais e nada menos que oitenta cidades. Em cada exército viking, os bersekers formavam um grupo de doze homens. Os outros guerreiros tinham grande respeito e medo, e tentavam ficar bem longe deles, vendo-os como homens perigosos, instáveis e imprevisíveis. Os próprios bersekers eram mantidos separados do resto do exército correspondente, cultivando o “pathos da distância”.


O CASO DOS BERSEKERS

Os bersekers, como todo paganismo, acabaram caindo em decadência. Em um ponto, provavelmente com o advento do cristianismo, a liderança religiosa esotérica da Escandinávia recebeu o toque de graça, desapareceu e submergiu. Toda a religiosidade germânica e suas tradições externas permaneceram, portanto, sem impulso ou direção, divididas e fracas, funcionando pela inércia.

A partir de então, distinguimos dois tipos de bersekers: o berseker heroico, valente, bravo e leal guerreiro de elite ao serviço de um grande rei; e o berseker decadente, bandido errante, dado ao roubo, pilhagem, assassinatos indiscriminados e estupro. Esta última figura corresponde às gangues criminosas escandinavas e seus sinais denotam o que acontece quando os impulsos masculinos — que têm sua origem no lado negro e tendem em princípio à destruição — caem fora do controle concedido pela disciplina, ascetismo e vontade. Estes bersekers eram descritos como terrivelmente feios, com traços deformados, uma única sobrancelha, de olhos escuros e cabelos pretos, com tendências maníacas e psicopatas. Tais criminosos, provenientes dos estratos sociais mais baixos da Escandinávia, vagavam pelas aldeias desafiando a duelos homens humildes. Uma vez que, rejeitar o duelo, eles seriam considerados covardes, os camponeses aceitavam por honra e autoestima, e geralmente caíram mortos sob os braços do bandido. Este, que não era um combatende de honra nem um soldado, era deixado com a terra do infeliz, seus bens, sua casa e sua esposa. Nas sagas, muitas vezes um guerreiro nobre acabava matando o impostor, libertando a mulher e casando com ela.

No século XI os duelos e os bersekers foram considerados fora da lei. Em 1015, o rei Érico I da Noruega os proibiu. “Grágás”, o código medieval das leis islandesas, também os condenou ao ostracismo. No século XII, esses bersekers decadentes desapareceram. Doravante, a Igreja cultivou a crença de que eles eram possuídos pelo Diabo.


Um caso digno de estudo: o rei Haroldo III da Noruega como exemplo do mundo viking e a importância dos bersekers nas batalhas

Injustamente, Haroldo geralmente aparece na história apenas como um rei norueguês que não conseguiu conquistar a Inglaterra. Haroldo, um gigante loiro de mais de 2,10 metros de altura, viveu numa época em que os reis escandinavos poliam as artes políticas e a corte para viver de acordo com os seus homólogos europeus, mas ele ainda estava mais em sintonia com guerreiros vikings livres de séculos anteriores. Até hoje, parece-me um mistério porquê ninguém fez um filme sobre esse homem.

Haroldo Sigurdsson nasceu na Noruega em 1015. Aos 15 anos ele participou a favor do rei Olavo II da Noruega na Batalha de Stiklestad contra o rei Canute da Dinamarca (mais tarde também rei da Inglaterra e da Noruega). Nesta batalha, que coincidiu com um eclipse solar, o exército de Olaf perdeu. Ferido, Haroldo conseguiu escapar da Noruega com guerreiros leais à sua linhagem e, no exílio, formar um bando de leais que escaparam da Noruega depois da morte de Olaf. Um ano depois, Haroldo com 16 anos, ele e seus noruegueses haviam atravessado a Finlândia e entrado na Rússia, onde serviram ao grande príncipe Jaroslau I, o Sábio como forças de choque, e onde Haroldo foi feito geral dos exércitos de Jaroslau.

Após dois anos, o jovem general viking estava mantendo uma relação amorosa com Isabel de Kiev, a filha de Jaroslau. Quando o príncipe, enfurecido, surpreendeu o casal, Haroldo se viu obrigado a fugir da Rússia com seus leais, segundo as más línguas, ainda levantando as calças pelo caminho. Haroldo atravessou com seus homens a Ucrânia e o Mar Negro e chegou a Constantinopla, a capital do Império Bizantino, onde se alistou na guarda varegue, uma unidade mercenária de elite composta exclusivamente por escandinavos. Haroldo se fez famoso em todo o Mediterrâneo, recebeu o sobrenome de “devastador da Bulgária”, triunfou no norte da África, Síria, Palestina, Jerusalém e Sicília, e acumulou uma imensa fortuna pessoal procedente do botim saqueado. Com o tempo, Haroldo foi feito chefe da guarda varegue, almirante da frota bizantina (a mais poderosa do Mediterrâneo) e recebeu grande autonomia para realizar independentemente ataques contra os inimigos de Bizâncio. Longe de sua Noruega natal, Haroldo e seus homens haviam se convertido nos filhos mimados de um grande império mediterrâneo. Em seu dia, as crônicas bizantinas se referiram a Haroldo como “filho de um imperador varegue”. Esteve a serviço dos bizantinos até 1042, isto é, até a idade de 27 anos.

Nessa idade, os rumores relacionaram à imperatriz Zoé Porfirogênita (uma megera casada com o imperador Romano III Argiro, um ancião que não demoraria a ser assassinado), com Haroldo, quando Haroldo em verdade estava mais interessado realmente por sua sobrinha, Maria, com quem a imperatriz o havia proibido de se casar. Apesar de Haroldo ter sido preso em uma masmorra, conseguiu escapar, juntar seus leais, sequestrar Maria e tomar um drakkar. O porto de Constantinopla estava protegido por uma corrente que impedia a passagem de embarcações, de modo que Haroldo ordenou a todo aquele que não remasse que fosse para a parte de trás de seu barco, enquanto os outros remavam. O barco, pois, levantou sua parte frontal por efeito do peso e, quando os que não remavam se deslocaram para a proa, superou as correntes com êxito.

Haroldo, enfim, abandonou o Império Bizantino com a prontidão que vinha sendo habitual em suas viagens, mas enviou Maria de volta para Constantinopla. Atravessando o Mar Negro e a Ucrânia, passou de novo pela corte de Kiev e se encontrou com seu antigo amor, a filha de Jaroslau, com quem se casou conforme viajavam para o norte através da Rússia.

Em 1045, tendo 30 anos, apoiado por seus endurecidos homens leais, sua própria experiência político-militar, suas impressionantes riquezas e por sua ampla rede de contatos, Haroldo reconquistou o trono da Noruega como Haroldo III Sigurdson, reinando por 20 anos e recebendo a alcunha de Hardråde (“o duro”). Mesmo assim, parece que toda essa vida de grandes gestos não havia enchido o viking o suficiente. Em 1066, Haroldo pôs seus olhos sobre a Inglaterra, essa terra que havia sido o destino de inúmeras migrações nórdicas desde o século V. Haroldo reivindicou o trono inglês aproveitando que havia existido no passado um reino dano-anglo-norueguês, e reuniu 300 drakkares para enfrentar as tropas anglossaxãs do rei Haroldo II da Inglaterra. Foi nesse marco que teve lugar a Batalha de Stamford Bridge, no norte da Inglaterra.

Precisamente nessa batalha teve um papel destacado um berserker gigante, ao lado de quem o próprio Haroldo (que tinha mais de dois metros) parecia um anão. Esse enorme berserker norueguês defendeu a ponte durante uma hora, matando todos que se aproximavam, e sem sucumbir diante das flechas. Um guerreiro anglossaxão conseguiu se enfiar debaixo da ponte descendo o rio dentro de um barril, e através de uma fenda nas tábuas, atravessou com uma lança o gigante. Isso abriu as portas para os anglossaxões, mas a resistência do herói havia dado tempo para que seus compatriotas (que haviam sido surpreendidos) organizassem uma linha de escudos que aos anglossaxões custou romper. Haroldo  morreu com a garganta atravessada por uma flecha. Quando um de seus homens perguntou se estava gravemente ferido, respondeu “é só uma pequena flecha, mas está fazendo seu trabalho”. Tinha 51 anos.

Só 10% dos soldados noruegueses sobreviveu à Batalha de Stamford Bridge. Os anglossaxões permitiram aos últimos vikings zarpar nos drakkares e voltar à Noruega. Geralmente, o ano da morte de Haroldo em 1066 coincide com a chegada do Cristianismo no Norte, e se considera a data do fim da “era viking”.


BROTOS DE FÚRIA SAGRADA

Não se pode dizer que o fogo do sangue nórdico desapareceu. No mesmo século que desapareceram os berserkers, se iniciou o auge das ordens de cavalaria, as novas männerbundens da Europa. Os grandes momentos de glória que a Europa desfrutou durante a Idade Média se devem a elas, basta pensar no Sacro Império, nas cruzadas orientais, na civilização occitana, na Reconquista espanhola, nos templários e nas lendas do Graal. Pode-se dizer, por sua vez, que havia desaparecido o exemplo mais visível e óbvio da fúria pagã.

O que houve com a liderança religiosa tradicional na Europa? Não desapareceu, mas submergiu. E desde o inconsciente coletivo adormecido no sangue europeu, manejou inúmeros grupos que quase estiveram a ponto de derrubar o poder da Igreja (recordemos o catarismo, os templários e os guibelinos). O Sacro Império Romano-Germânico (o Iº Reich) foi um grande repositório da tradição ancestral. Seus imperadores (como o famoso Frederico Barbar Ruiva, ou seu neto Frederico II), muitos deles educados desde a infância por ordens de cavalaria, foram considerados hereges, antipapas e anticristos pela Igreja, posto que a maioria estiveram diretamente envolvidos em atividades “pouco cristãs”, incluindo saques do Vaticano, pactos com ordens de cavalaria à margem da Igreja e tratativas com o Islã. O imperador Carlos V (rei da Espanha e do Sacro Império Romano-Germânico, e senhor de meia Europa, ademais de vastos territórios em ultramar) também saqueou o Vaticano como seus antepassados visigodos mais de mil anos antes, aterrorizando o Papa como se de um proscrito vulgar se tratasse, pelo que talvez se devia perguntar como estes homens entendiam a religião cristã e a lealdade que supostamente deviam à Igreja.

Após a desastrosa Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), o Sacro Império caiu definitivamente, sendo substituído por pequenos e ridículos Estados burgueses que foram assolados pela peste negra e pelo protestantismo, e que se dedicaram à perseguição virulenta de hereges, queimando ou enforcando o maior número de “bruxas” de toda Europa, enquanto os turcos tomavam os Balcãs. Regiões inteiras da Alemanha foram despovoadas por essa paranoia. Dessa época vieram também as lendas de lobisomem, e na Alemanha se acusou a muitos homens de serem licantropos. Milhares foram torturados e executados por isso.

A queda dos templários e do Sacro Império constituiu, então, um marco: caiu a mística Idade Média de castelos e cavaleiros, e foi substituída pela suja era das fomes, das pestes, da caça as bruxas, do puritanismo, da Bíblia e do fundamentalismo religioso. Mesmo assim, a Infantaria relevou a Cavalaria como corpo dominante nos campos de batalha, como é patente as conquistas dos Tercios (tão similares em sua organização e mentalidade às legiões romanas).

Das ordens de cavalaria, do misticismo medieval, do sentimento de dharma e da ordem social tradicional, ficaram os rosacruzes e os maçons. E ambos acabaram, por sua vez, infiltrados pelo auge da nova casta comercial-financeira (a burguesia), como é especialmente patente na maçonaria moderna.

No século XIX, a religiosidade do germanismo começou a despertar de novo. A Europa havia descoberto a sabedoria do Oriente, e se haviam traduzido inúmeros textos sagrados, especialmente do Irã e Índia. Arqueólogos alemães desenterraram cidades, templos e estátuas gregas. Apareceu a Prússia, portadora de uma nova ideia imperial militarista. Apareceu o IIº Reich. Surgiram grupos místicos paganizantes. E em pleno século XX, o renascimento explorou e se manifestou no IIIº Reich. Adolf Hitler, cujo próprio nome significa “lobo nobre”, desempenhou na Europa um papel similar ao de Licurgo (cujo nome significa “condutor de lobos”) desempenhou em Esparta. Nos últimos dias do IIIº Reich, unidades fanáticas de guerrilheiros insurgentes extremamente jovens denominados werwolf (homens-lobo) protagonizaram a última imolação de resistência até o fim da ocupação da Alemanha após a IIº Guerra Mundial.

O GERMANISMO E A VINDA DO RAGNAROK

Segundo o conceito dos antigos pagãos germânicos, a tormenta final, no vértice do Ragnarok, será uma caçada contra as forças do mal. Odin, brandindo sua lança e cavalgando seu cavalo de oito patas, descerá sobre a Terra. Thor, empunhando seu martelo e montado sobre seu carro de guerra puxado por bodes, aparecerá no céu urrando furioso e rodeado por raios, causando um estrondo avassalador. A Wildes Heer (horda furiosa), o Oskorei (exército do trovão), o exército dos caídos, arrasará os inimigos dos deuses, fazendo retumbar o solo com os cascos de seus cavalos e o ar com seus gritos de batalha. As sombrias valquírias cavalgarão serenamente, prestando atenção ao desenvolvimento das batalhas para escolher aos novos caídos. Os corvos de Odin, seus lobos e todo tipo de seres sobrenaturais, proliferarão no grosso da tormenta mística, fazendo tremer às forças da escravidão materialista, estremecendo angustiosamente as almas dos inimigos dos deuses, e derrubando fatidicamente os muros que separam a Terra do Mais Além.

Tudo aquilo era uma explicação metafórica, simbólica e poética do fim de uma era, quando finalmente o céu se enfurecer e cair sobre a Terra, e se trave o apocalíptico combate do superior contra o inferior, do bem contra o mal. Talvez um dia, os desmemoriados apóstolos da civilização financeira e da usura voltem a conhecer com horror a sede de batalha do homem europeu, a espumante e angustiosa raiva do guerreiro inspirado, o instinto do trabalhador, do conquistador, do pioneiro, do explorador, do artista, do soldado, do senhor e do destruidor que a Europa leva em si, e cujo último exemplo foi quiçá, em dias distantes, o berserker escandinavo.

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Runa wolfsangel, emblema do Werwolf procedente do paganismo germânico.

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“O cristianismo, e este foi seu maior mérito, subjugou até certo ponto o brutal ardor guerreiro dos germânicos, mas não pôde quebrá-lo de todo, e quando a Cruz, esse talismã restringente, cair em pedaços, então se liberará novamente a ferocidade dos antigos combatentes, a frenética fúria berserker da qual os poetas nórdicos falaram e cantaram tanto. O talismã se apodreceu, e chegará o dia em que cairá penosamente no pó. Os velhos deuses de pedra, então, se levantarão das ruínas esquecidas, e limparão de seus olhos o pó de séculos, e Thor, com seu martelo, surgirá de novo. Quando ouças o pisar das botas e o chocar das armas, filhos de seus vizinhos, ficai em guarda…talvez ela se descarregue contra vós.

Não sorriais ante a fantasia daquele que prevê no campo da realidade a mesma eclosão de revolução que teve lugar na região do intelecto. O pensamento precede à façanha como o raio ao trovão. O trovão alemão é de autêntico caráter germânico: não é muito ágil, na medida em que retumba lentamente. Mas chegará, e quando ouvirdes choques tais como a história do mundo jamais viu, então sabereis que finalmente o raio germânico caiu.

Com essa comoção, as águias cairão mortas do céu, e até os leões das pastagens mais longínquas da África morderão suas caudas e se arrastarão para seus covis reais. Terá lugar na Alemanha um drama comparado com o que a revolução francesa parecerá um inocente idílio. No presente tudo está silencioso, e ainda que aqui e ali alguns homens criem agitação, não imagineis que estes serão os verdadeiros atores na obra. Só há cãezinhos perseguindo uns aos outros ao redor da arena…até a hora assinalada na qual a tropa de gladiadores aparecerá para lutar por vida ou morte. E a hora chegará”. 

~ Heinrich Heine – (Chaim Bückeburg)

 

 

NOTAS

[1] As três palavras revelam sua procedência da raiz da runa Man, a runa de Minne (memória, amor superior) da virilidade e da vida.

[2] Também está relacionada com as míticas civilizações sobrehumanas do folclóre europeu (gigantes, titãs, Atlântida, atlantes, Tuatha Dé Danann).

[3] “Ritos de iniciação e sociedades secretas“.

[4] O grupo de doze homens (mais o líder ou protegido, o décimo terceiro) é recorrente, não só nas diversas mitologias indo-europeias, mas também na vida quotidiana dos germânicos, e representantes dos círculos seletos. Doze eram os homens que normalmente eram requeridos para levar a cabo uma missão sagrada. Doze eram os representantes do Thing (Conselho) entre os povos nórdicos.  Doze eram as testemunhas (jurados) que se apresentavam em certos casos de justiça. Doze eram os representantes entre um grupo numeroso que eram convidados para uma festa. E, como todos sabemos, doze eram os apóstolos do plágio judeu de Cristo, doze eram os cavaleiros seletos da Távola Redonda dos Ciclos Arturianos, assim como doze são os raios que partem do ponto central no símbolo arquétipo do sol negro.

[5] O verter espuma pela boca pode estar relacionado com a raiva que possui o lutador fanático transformado em batalha. Curiosamente, durante certos combates em plena guerra civil espanhola, muitos membros da Legião Espanhola, visivelmente fanatizados e alterados pela brutalidade dos combates e por sua própria doutrinação pseudo-mística, vertiam espuma pela boca.

[6] Também os posteriores almogávares da Coroa de Aragão tinham este costume.

[7] “Germânia“.

[8] Para o homem envenenado pelo Sistema, a via sinistra, a via úmida, é o primeiro caminho a seguir. Por outro lado, o ter filhos, tão necessário em nossa época, está vedado na via destra.

[9] Também o são o leão, o carneiro, o bode ou o touro. O urso tem a particularidade de poder se colocar em pé e erguer assim sua medula espinhal. Com isso, passa da horizontalidade à verticalidade, apontando sua espinha dorsal ao céu, e simbolizando o trânsito do lado material (horizontalidade, terra) ao espiritual (verticalidade, céu) à vontade. O lobo tem a particularidade de que, além de constituir uma manada firmemente unida e hierarquizada, pode se desenvolver sozinho, e de que durante o inverno não hiberna, mas permanece ativo e predador.

[10] “Ritos de iniciação e sociedades secretas“.

[11] O nome dinamarquês do rei era Hrolf Ganger, ou Rollo “o Caminhante”, pois se dizia que era grande demais para que um cavalo pudesse transportar seu peso.

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Texto por Eduardo Velasco
Comunidade Avernal da Canídea, Pacto da Alcatéia

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